0# CAPA 1.7.15

VEJA
www.veja.com
Editora ABRIL
Edio 2432  ano 48  n 26
1 de julho de 2015

[descrio da imagem: foto de alguns prdios do governo em Braslia, com colorido mostrando o entardecer, aparecendo cus, e toda a imagens em tons de azul e bord. No centro, parecendo ser projetado no cu, a imagem, de perfil, em sombra, o rosto de Ricardo Pessoa]
EXCLUSIVO 12 PGINAS
 SOMBRA DO DELATOR
Veja teve acesso aos espantosos relatos que levaram o STF a aceitar a delao premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa.

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1# SEES
2# PANORAMA
3# BRASIL
4# ECONOMIA
5# INTERNACIONAL
6# GERAL
7# ARTES E ESPETCULOS
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1# SEES 1.7.15

     1#1 VEJA.COM
     1#2 CARTA AO LEITOR  A SERVIO DOS GOVERNADOS
     1#3 ENTREVISTA  UMBERTO ECO  A CONSPIRAO DOS IMBECIS
     1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  WHERE IS ARACAJU?
     1#5 MALSON DA NBREGA  RISCOS PARA O PT EM 2018
     1#6 LEITOR
     1#7 BLOGOSFERA

1#1 VEJA.COM
CINCIA DE QUALIDADE (NO QUANTIDADE)
Em 1905, um nico artigo de trs pginas revolucionou a cincia. Nele, o alemo Albert Einstein, ento mero atendente em um escritrio de patentes, enunciou a equivalncia de massa e energia ao esboar a frmula E = mc2, pilar da teoria da relatividade e de toda a fsica moderna. Se vivesse hoje, Einstein provavelmente seria fechado em um laboratrio e obrigado a publicar no um, mas dezenas de longos (e irrelevantes) artigos anuais para obter financiamento para seus estudos. A revista Science dedicou-se em edio recente a debater o atual estgio das pesquisas acadmicas. Hoje, pesquisadores vivem um cenrio em que a quantidade de trabalhos divulgados vale mais que sua qualidade. Reportagem do site de VEJA discute esse dilema e mostra como ele promove falhas, fraudes e plgios em pesquisas cientficas. 

MSICA EM NMEROS
Informaes sobre msicos, difundidas em servios de streaming, redes sociais e sites como YouTube e Wikipedia, hoje so reunidas por empresas especializadas em anlise de big data. Companhias como The Echo Nest, Next Big Sound e Musicmetric so capazes de fazer recomendaes a usurios de servios de streaming, descobrir quais artistas - como j fizeram com Sam Smith - sero os novos queridinhos do pblico e fornecer dados valiosos para o planejamento de campanhas de marketing e turns. Reportagem do site de VEJA mostra como essas empresas planejam revolucionar o meio musical.

PROPOSTA RADICAL
O lanamento do livro O Capital no Sculo XXI, do francs Thomas Piketty, direcionou holofotes a um tema que at pouco tempo atrs no estava no centro da pesquisa econmica: a desigualdade. Mas o sucesso de Piketty ofuscou estudiosos que h cinquenta anos analisam o abismo entre pobres e ricos, como o britnico Anthony Atkinson, que acaba de lanar Inequality: What Can Be Done?, ainda sem previso de traduo para o portugus. Se confrontado com Atkinson, Piketty pode ser chamado de conservador. O britnico prope que os Estados garantam emprego e salrio  populao. Em entrevista ao site de VEJA, ele explica suas propostas.


1#2 CARTA AO LEITOR  A SERVIO DOS GOVERNADOS
     O jornalismo de VEJA esteve na vanguarda da apurao de todos os grandes estremecimentos polticos do Brasil contemporneo. Os reprteres da revista foram responsveis pelas mais decisivas revelaes, da queda de Collor, em 1992, ao petrolo, passando pelo estouro das quadrilhas que se locupletavam de dinheiro pblico nos escndalos conhecidos como Anes do Oramento, Sanguessugas  e, com ainda mais preponderncia, no mensalo. 
     Desde que os procuradores, os policiais federais e o juiz Srgio Moro comearam a iluminar os labirintos escuros do esquema de corrupo na Petrobras, os leitores da revista foram os primeiros a saber das grandes revelaes do que viria a celebrizar-se como a Operao Lava-Jato. Isso se deve ao talento, dedicao e coragem da equipe liderada por Policarpo Jnior, redator-chefe de VEJA e chefe da sucursal de Braslia. Policarpo, Rodrigo Rangel, Robson Bonin, Daniel Pereira, Adriano Ceolin e Hugo Marques so eptomes do jornalismo investigativo, atividade que o juiz Moro reconheceu recentemente como um dos mais valiosos instrumentos "de controle dos governantes pelos governados". 
     Em pouco mais de um ano, a apurao do petrolo resultou em 24 capas e dezenas de reportagens sobre o caso, num total  de 278 pginas, das quais brotaram notcias de primeira mo, os "furos", no jargo jornalstico, antecipando valiosas informaes com as quais os leitores de VEJA puderam situar-se em relao a questes complexas e graves. 
     Entre tantas descobertas, VEJA noticiou com exclusividade o contedo das delaes premiadas de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da Petrobras, e do doleiro Alberto Youssef. Uma reportagem especial desta edio d sequncia a esses feitos, com a revelao dos espantosos relatos que compem a delao do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, homologada na semana passada pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal. Os governantes nem sempre apreciam, mas os governados podem sempre contar com a imprensa livre e suas investigaes. 


1#3 ENTREVISTA  UMBERTO ECO  A CONSPIRAO DOS IMBECIS
O escritor italiano diz que a internet d voz a todo tipo de opinio desqualificada  e que o jornalismo, tema de seu novo romance, deve atuar como um filtro para o que se l na rede.

O Castelo Sforzesco, em Milo, preserva tesouros da arte italiana, como a Piet Rondanini, de Michelangelo. Um dos sbrios edifcios residenciais em frente ao castelo abriga outro tesouro italiano: Umberto Eco, filsofo, crtico literrio e romancista traduzido em mais de quarenta idiomas. O autor de O Nome da Rosa, romance ambientado na Idade Mdia que vendeu mais de 30 milhes de exemplares, lanou neste ano Nmero Zero  que chega ao Brasil nesta semana, pela Record , um retrato crtico do jornalismo subordinado a interesses polticos. Na casa milanesa, onde conserva uma biblioteca de 30.000 livros (h outros 20.000 em sua residncia em Urbino), Eco, 83 anos, recebeu VEJA para falar de jornalismo, internet, conspiraes e, claro, literatura. 

Foi um estrondo a sua declarao, em uma cerimnia na Universidade de Torino, de que a internet d voz a uma multido de imbecis. O que o senhor achou da dimenso que o assunto tomou? 
As pessoas fizeram um grande estardalhao por eu ter dito que multides de imbecis tm agora como divulgar suas opinies. Ora, veja bem, num mundo com mais de 7 bilhes de pessoas, voc no concordaria que h muitos imbecis? No estou falando ofensivamente quanto ao carter das pessoas. O sujeito pode ser um excelente funcionrio ou pai de famlia, mas ser um completo imbecil em diversos assuntos. Com a internet e as redes sociais, o imbecil passa a opinar a respeito de temas que no entende. 

Mas a internet tem seu valor, no? 
A internet  como Funes, o memorioso, o personagem de Jorge Lus Borges: lembra tudo, no esquece nada.  preciso filtrar, distinguir. Sempre digo que a primeira disciplina a ser ministrada nas escolas deveria ser sobre como usar a internet: como analisar informaes. O problema  que nem mesmo os professores esto preparados para isso. Foi nesse sentido que defendi recentemente que os jornais, em vez de se tornar vtimas da internet, repetindo o que circula na rede, deveriam dedicar espao para a anlise das informaes que circulam nos sites, mostrando aos leitores o que  srio, o que  fraude. Ser que os jornais esto prontos para isso? A crtica da internet exige um novo tipo de expertise, mesmo para os jornais. E isso  muito importante para os jovens, pois eles no tm, aos 15, 16 anos, os conhecimentos necessrios para filtrar as informaes a que tm acesso na rede. Ora, assim como quem l diversos jornais acaba aprendendo a distinguir as abordagens distintas de cada um deles, os jovens hoje precisam aprender a buscar essa variedade de abordagens nos sites que frequentam. 

O jornalismo  que  tema de seu novo romance, Nmero Zero  conseguia desempenhar melhor essa tarefa crtica antes da internet? 
A crise do jornalismo comea nos anos 50, com a televiso. Antes disso, os jornais diziam, pela manh, o que havia acontecido no dia anterior, ou at mesmo na noite anterior. Os prprios nomes indicavam um pouco isso: o italiano Corriere della Sera, o francs Le Soir, o ingls Evening Post. Depois da televiso, os jornais passaram a dizer, pela manh, o que as pessoas j sabiam. Eles deveriam ter mudado  e no mudaram. Mudar, naquele contexto, significaria reduzir o nmero de pginas, mas, em vez disso, os jornais ampliaram o tamanho, sobretudo por razes de publicidade. Ora, como preencher esse espao? Trs possibilidades. Primeira: aprofundar a informao atravs de anlises e comentrios. Alguns jornais foram por esse caminho, com maior ou menor xito, como o New York Times. Segunda possibilidade: a pura fofoca, que foi o caminho de certos jornais britnicos. Terceira: a repetio das mesmas notcias. H dois dias, um garoto sul-americano atacou um controlador de trem aqui em Milo  com um machado.  uma informao que pode ser dada em uma pequena coluna. No entanto, voc olha os jornais e l esto pginas inteiras sobre o assunto. Pode at ser divertido, enquanto tomo o caf, ler mais detalhadamente uma matria mais longa. Acredito que Hegel estava certo: a leitura dos jornais de manh  a orao do homem moderno. 

Em alguns de seus romances anteriores, como O Pndulo de Foucault, as teorias da conspirao estavam no centro da trama. Em Nmero Zero, no entanto, o senhor faz um uso diverso das conspiraes. Por qu? 
H um personagem paranico, Braggadocio, que constri a sua prpria conspirao, com um elemento inventado: Mussolini no teria sido executado. Fora isso, todos os fatos que relato em Nmero Zero pertencem  categoria das conspiraes reais. A caracterstica de uma conspirao verdadeira  que ela  invariavelmente descoberta. Houve uma conspirao para matar Jlio Csar, e todos sabemos. O perigo est nas conspiraes falsas, pois voc no consegue desmenti-las  mas elas se prestam  manipulao: quem quiser tirar proveito delas poder montar contraconspiraes muito reais. Foi o que Hitler fez, propagando a falsa conspirao dos judeus, dos Protocolos dos Sbios de Sio. 

As conspiraes de Nmero Zero, ento, so fatos histricos? 
Todos perfeitamente descobertos. Ainda  difcil saber quem era culpado, mas ningum nega hoje, por exemplo, o plano do Golpe Borghese (golpe de direita desbaratado na Itlia nos anos 70). O que me surpreende nos fatos todos que eu relato no livro no  que eles tenham realmente acontecido, mas sim o modo como o pas inteiro aceitou tudo passivamente. Essas informaes entraram por um ouvido e saram pelo outro. Ficamos sabendo de todas essas coisas e ningum se desesperou. 

"Somos um povo de punhais e venenos, estamos vacinados", diz uma das personagens a certa altura. O problema est nessa resignao, ento? 
Sim, essa  a tragdia. No meu livro, falo da tragdia da histria recente da Itlia, mas acho que consegui sugerir que  um problema que diz respeito a outros pases tambm. , de certa forma, a memria da mdia e o modo como ela funciona: o que  publicado com escndalo hoje dissolve-se nos prximos dias. Pegue um exemplo clebre: durante algum tempo, os jornais exploram continuamente escndalos que envolvem pedofilia. Depois de certo tempo, o assunto comea a desaparecer, at que nenhum veculo tem mais nada a noticiar sobre o assunto. Os pedfilos deixaram de existir? Certamente no, mas nenhum jornal pode insistir nas mesmas notcias por muito tempo. Ento, os jornais so obrigados a produzir a perda da memria, criando, assim, um presente eterno em que o passado  constantemente esquecido. 

O personagem do comendador Vimercate, o dono do jornal usado para escusos fins polticos em Nmero Zero,  baseado no ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi? 
Essa  uma pergunta que me foi feita em todas as entrevistas. Veja bem, o mundo est repleto de tipos como o comendador Vimercate. Rupert Murdoch, por exemplo? Obviamente,  possvel encontrar certas analogias com Berlusconi, ainda que ele seja muito mais importante e mais esperto que o comendador Vimercate. O problema  que, sempre que se tm, como  o caso na Itlia, jornais que no pertencem a um grupo exclusivamente dedicado  rea de comunicao  a exemplo da famlia Ochs Sulzberger, do New York Times , o jornalismo e a informao saem prejudicados. Tomemos um episdio recente: acabaram de revelar que na direo do Corriere della Sera h industriais da Fiat.  quando percebemos que o mundo est cheio de comendadores. 

A internet  um meio propcio  divulgao de teorias conspiratrias. Isso muda algo na considerao do tema em suas obras de fico? 
Sempre tive a convico de que escrever um livro  um romance, em particular, mas qualquer livro, na verdade   construir seu prprio leitor,  dizer "voc deve se tornar isto". Mesmo que isso seja, como  de fato, impossvel. Depois de ter escrito O Pndulo de Foucault, que era uma representao grotesca desses planos conspiratrios e de supostas sociedades secretas, recebi inmeras cartas de pessoas apresentando-se como "Gro-Mestre Templrio". Ou seja, voc ter sempre alguns leitores malucos. No h como evitar: voc pode escrever sobre conspiraes falsas de um modo pardico ou grotesco, e mesmo assim certos leitores pensaro que elas de fato existem, e dizem: "E exatamente assim, eu sempre soube". A internet no alterou isso substancialmente. No fundo, o que o escritor pode fazer  preparar bem seu livro, oferecer sua crtica, e o resto est nas mos de Al. 

Nmero Zero tem pouco mais de 200 pginas. O Nome da Rosa e O Pndulo de Foucault ficam ao redor de 600. Um romance curto o obriga a mudar seu estilo e sua estratgia narrativa? 
Gosto de dizer que todos os meus romances anteriores poderiam ser comparados  uma sinfonia de Mahler, ao passo que este agora  uma composio de jazz de Charlie Parker. Tento criar um estilo adequado ao tema e  ambientao histrica de cada romance. Por exemplo, em A Ilha do Dia Anterior, ambientado no sculo XVII, tentei criar uma linguagem barroca, elaborada. J em Nmero Zero, eu estava tentando assimilar o ritmo rpido e sincopado do jornalismo. Fui como que instado pelo prprio tema do romance a adaptar o estilo a suas exigncias: dilogos curtos, sem descries. Repare que at as referncias  linguagem, no romance, so referncias ao estilo jornalstico, s frases feitas, ao modo de induzir ou enganar sutilmente o leitor. A virtude de um romance  que  ele que decide quando chegou o momento de parar. Chega um instante em que, apesar de voc querer continuar a contar a histria, desenvolv-la ou desdobr-la, o romance faz o servio de se impor e dizer: Chega, pare por aqui. Nmero Zero me disse para parar onde parei.

No livro, o fascismo de Mussolini  uma sombra sobre a histria italiana do ps-guerra. Qual  a cara atual do fascismo? 
O fascismo clssico, representado por Mussolini, desapareceu. Mas Nmero Zero  dominado pelo sentimento do retorno do que eu chamei de "fascismo eterno". E isso est associado a diversos aspectos da poltica contempornea. A atitude poltica da Liga Norte, discriminatria e racista,  uma nova forma de fascismo. Trata-se de uma questo de atitude poltica mais ampla do que a experincia histrica de Mussolini, e podemos encontr-la em diferentes contextos histricos. Veja o Estado Islmico, que eu chamo de o novo nazismo: querem aniquilar outras etnias, impor um credo, conquistar o mundo. Nunca nos livramos permanentemente dessa atitude. 

Pela natureza dos temas que o motivam, o volume perdido da Potica de Aristteles em O Nome da Rosa, ou a discusso sobre a doutrina filosfica conhecida por nominalismo, o senhor teria tudo para ser considerado um "escritor para escritores". No entanto, mesmo excessivamente intelectualizado, seu primeiro romance passou dos 30 milhes de cpias vendidas. Como o senhor explica esse fato? 
Quando terminei O Nome da Rosa, eu pensei em fazer uma pequena edio caprichada de 3000 ou 4000 exemplares. A meu editor leu o romance e percebeu que o livro poderia ter outro alcance  e o resto  histria. Bem, h, de fato, escritores que escrevem para outros escritores. Digamos, Finnegans Wake, de James Joyce,  claramente um livro para escritores ou fanticos por literatura. Hoje, Julian Barnes, entre outros,  um escritor para escritores. Mas h escritores que escrevem para todas as pessoas. Dante Alighieri escreveu para ser lido por todos. H essa famosa histria, relatada por Giovanni Boccaccio, segundo a qual Dante teria ouvido um ferreiro que, enquanto trabalhava, recitava seus versos. Esse ferreiro era certamente iletrado. No entanto, a Divina Comdia o alcanou. Balzac escrevia para todo tipo de leitor. Tolstoi, a mesma coisa. Encontrei-me, ento, em muito boa companhia quando descobri que eu tambm estava escrevendo para todas as pessoas. 


1#4 CLAUDIO DE MOURA CASTRO  WHERE IS ARACAJU?
     Faz um bom tempo, diante de mais uma crise no Nordeste, a famlia pauprrima migrou para So Paulo. Mas no todos. Ficou um jovem que, aps batalhar muito, acabou conseguindo um emprego de vigia noturno em uma escolinha no centro velho de Aracaju  dormia em uma rede, na cozinha da escola. 
     Fruto de muita dedicao, virou professor e, depois, diretor. Mais adiante, abriu a sua escola, ali mesmo no centro. 
     Formando-se em direito, o passo seguinte foi abrir uma faculdade. Aos poucos, o professor Ucha foi acumulando a munio de que precisava para transform-la em universidade. O grande salto foi a construo de um cmpus formoso, prximo s melhores praias da cidade. 
     A Universidade Tiradentes  hoje a segunda melhor do Estado de Sergipe, pelos critrios do MEC. Aprendido o ofcio de abrir faculdades, abriu uma em Macei que virou Centro Universitrio e j superou a Federal. O novo cmpus do Recife avana, ajudando a somar os 50000 alunos da instituio  
     Pela teoria, universidade deve ter pesquisa. S na teoria! No  o caso da Tiradentes, cuja pesquisa j ocupa dois prdios substanciais e mobiliza um oramento de 12 milhes de reais. Nada mau. 
     O prximo passo? A Tiradentes viu a fora da internacionalizao. Da, refora os estudos de ingls, a lngua da cincia. Aproveitando o Cincia sem Fronteiras, j foram para o exterior mais de 250 alunos. 
     Sessenta instituies fazem de Boston e suas vizinhanas a maior concentrao mundial de ensino superior de primeira linha. Sendo assim, para l se despacha o professor Matheus Batalha, com a misso de explorar os cenrios que permitiriam  Universidade Tiradentes respirar os bons ares acadmicos da regio. 
     Comea ento a busca por uma frmula e um local. Entra em cena o Cambridge Institute for Brazilian Studies, um instituto recm-formado por dois ex-Harvard. Os professores James Ito-Adler e Biorn Maybury-Lewis so veteranos da cooperao internacional. Ainda com uma agenda incipiente, deu-se um casamento natural com a Tiradentes. Nesse matrimnio, tive uma modesta contribuio, apresentando os dois lados. 
     Como se sabe, o mercado imobilirio da regio de Boston  cronicamente inflacionado pela presena de universidades ricas e empresas de base tecnolgica. Quase trs anos foram consumidos na busca de um local. 
     Nesse nterim, ocorrem dois eventos paralelos. A Universidade de Massachusetts, com sua tradicional sede em Amherst, decide expandir seu cmpus em Boston. Sendo uma instituio pblica, ganha um terreno enorme,  beira da Baa de Boston. Os prdios esto subindo, e j h vrios em operao, de resto, com uma estrutura interdisciplinar muito inovadora. Fica tambm no cmpus um museu em homenagem a J.F. Kennedy, com um esplndido edifcio, assinado pelo arquiteto Pei (o da pirmide do Louvre). O segundo evento foi a contratao de um pr-reitor de assuntos internacionais, com currculo slido e muitas ideias  o professor Schuyler Korban. Logo abre um centro de estudos chineses. E depois? 
     Quando Matheus estava quase alugando um espao, aparece a oportunidade de transformar a iniciativa no Tiradentes Institute, associado  Universidade de Massachusetts, dentro do cmpus de Boston. Foi nos ltimos dias de maio a assinatura oficial do convnio que criou o instituto. Quando ficar pronto o espao, podero comear as atividades de intercmbio e tudo o mais que oferece uma presena estratgica em Boston  talvez um desafio ainda maior. 
     No por acaso, a cerimnia coincidiu com o congresso da NAFSA, uma organizao voltada para atividades de intercmbio entre pases e universidades do mundo inteiro. Estima-se que havia cerca de 15.000 participantes, de muitas dezenas de pases  e mais as universidades americanas. Sendo assim, compareceram  festa brasileiros, brasilianistas, embaixador e um diretor da Capes (a nota dissonante foi a pssima qualidade da caipirinha local). 
     O MEC estava presente na NAFSA, representado por mais de vinte universidades brasileiras. Contudo, alm da Faap, s a Tiradentes tinha estande prprio  bem instalado e mostrando um vdeo da universidade. 
     Dado o inusitado da situao, a pergunta inevitvel dos que nele paravam no poderia deixar de ser: " Where is Aracaju?".
CLAUDIO DE MOURA CASTRO  economista
claudiodemouracastro@positivo.com.br


1#5 MALSON DA NBREGA  RISCOS PARA O PT EM 2018
     O PT certamente deseja ganhar de novo as eleies presidenciais com a provvel candidatura de Lula em 2018. Na estratgia, estaria uma guinada  esquerda.  prova da dificuldade de evoluir na linha de partidos socialistas que aderiram  democracia e  economia de mercado. O PT valoriza a democracia, mas defende, paradoxalmente, o "controle social da mdia", que violaria o princpio da liberdade de expresso. Vrias correntes professam um anticapitalismo pueril e retrgrado, como se viu no recente congresso em Salvador. 
     No sculo XX, partidos europeus de esquerda abandonaram o socialismo radical e migraram para o centro do espectro poltico e econmico. O destaque nas dcadas de 80 e 90 coube, respectivamente, ao Partido Socialista Operrio Espanhol e ao Partido Trabalhista britnico. Sob a liderana de Felipe Gonzlez e Tony Blair, essas duas siglas abandonaram o dirigismo econmico e clusulas que negavam o direito de propriedade. Ambas adotaram polticas econmicas responsveis e a privatizao de empresas estatais.  
     O PT sinalizou que seguiria a mesma trilha. Em 2002, a Carta ao Povo Brasileiro rifou teses econmicas tresloucadas do partido. Lula sugeria que, caso eleito, manteria a poltica econmica de FHC, o que se confirmou. Com Palocci no Ministrio da Fazenda e Meirelles no Banco Central, foram adotadas sensatas e bem-sucedidas polticas fiscal e monetria. Visava-se a preservar o Plano Real, que o PT combatera. 
     Lula passou a ser visto como a encarnao brasileira de Gonzlez e Blair. Viabilizadas por aumento do potencial de crescimento e da arrecadao, polticas que reduziram a pobreza e as desigualdades contriburam para forjar essa imagem. Era o efeito da gesto econmica, mas tambm dos ganhos de produtividade gestados  em governos anteriores e da emergncia da China como o maior importador de commodities, o que permitiu impulsionar exportaes e acumular reservas internacionais. 
     O PT no era, contudo, uma rplica da esquerda espanhola e britnica. A Carta ao Povo Brasileiro foi uma cortina pragmtica para encobrir antigas e resistentes vises. A caminhada ao centro visava apenas a evitar uma quarta derrota eleitoral. Com a sada de Palocci em 2006, o passado ressurgiu. A interveno na economia em 2009, durante a crise internacional  justificada e coroada de xito , foi a senha para restabelecer o velho iderio, cuja sntese era a malfadada Nova Matriz Macroeconmica. Dilma aprofundou os novos rumos. Deu no que deu. 
     O ajuste atualmente em curso objetiva evitar o colapso da economia, mas a volta de um nvel razovel de crescimento depende da restaurao da confiana e, sobretudo, de ganhos de produtividade decorrentes de reformas estruturais, pouco provveis. A mudana pode nos salvar de uma catstrofe, mas infelizmente contribui para tirar da sombra obsoletos ideais. A condenao ao trabalho do ministro da Fazenda contm crticas cidas ao ajuste fiscal, como se este fosse a causa da recesso, e no o remdio para combat-la. 
     O congresso de Salvador foi o palco para revelar ideias do alm. No fosse a interveno de Lula, a declarao final teria sido um amontoado de sandices. Poderia incluir a condenao da poltica econmica e a defesa da volta da CPMF. Provavelmente tambm mencionaria a tributao de grandes fortunas, um imposto ruim, de baixo potencial de arrecadao e que no deu certo em canto algum. Uma das teses, intitulada "Abaixo a poltica de austeridade", tirou do tmulo propostas de anulao das privatizaes e de calote na dvida externa. 
     O congresso foi permeado por velhas vises e pela defesa de uma nova aliana para 2018, composta de partidos de esquerda, ou seja, sem o PMDB e outras agremiaes tidas como conservadoras. Seria a sada para a vitria de Lula nas prximas eleies presidenciais. Como lembrou Dora Kramer, o PT tentaria retornar aos tempos em que sofria seguidas derrotas eleitorais. Ademais, a estratgia ocorreria em ambiente de declnio de filiaes ao partido, da corroso de sua imagem por corrupo e m gesto, e da queda da aura de lder imbatvel que Lula conquistou por certo tempo. A histria mostra que pode no funcionar. 
MAILSON DA NBREGA  economista


1#6 LEITOR
OPERAO LAVA-JATO
Perfeito o ttulo da reportagem de VEJA ("O penltimo degrau", 24 de junho). A escada realmente  ngreme, com muitos degraus que foram ultrapassados pela fora, coragem e persistncia de alguns que parecem ser movidos por uma quase esquecida e por vezes to desvalorizada necessidade  fazer a coisa certa. 
MYRIAM FERREIRA PINTO E SILVA 
Esprito Santo do Pinhal (SP), via tablet 

 estarrecedor o esquema de roubalheira no Brasil. Temo pela integridade fsica do juiz Srgio Moro, pois esse homem vem sendo a esperana de um pas melhor. Aos 60 anos, finalmente vislumbro a possibilidade de um pas melhor, mais justo, com corruptos e corruptores presos, pagando pelo que se tornou a quase falncia da Petrobras e do prprio Brasil. Espero tambm que boa parte do que foi roubado seja devolvida aos verdadeiros donos: o povo brasileiro. Tenho orgulho de ser leitor de VEJA, e o Brasil deve ser grato  Editora Abril por contribuir para a decncia e moralidade de todo o pas. 
ALEXANDRE DA COSTA CARVALHO 
Recife, PE  

Muita grana rolou no petrolo e gente grada j foi presa. O maior beneficirio desse escndalo est sendo paulatinamente acuado. 
ANTNIO CARLOS DUPRAT BARROS 
Recife, PE  

Espera-se que o degrau seguinte da Operao Lava-Jato seja "homo homini lupus" (o homem  o lobo do homem), no momento em que as ratazanas vo pingar os pontos nos is, devorando-se mutuamente, revelando quem  quem nesse enredo de esconde-esconde. Em seguida, ser atingido o ltimo degrau da operao, denominado "O juzo final", que acontecer no "dies irae"  o dia da ira do povo brasileiro. 
ELIZIO NILO CALIMAN 
Braslia, DF 

O Judicirio brasileiro deveria prestar mais ateno ao que acontece em Curitiba: os procuradores desse caso e o juiz Srgio Moro, que j se tornou um dolo nacional, demonstram que, com o aparato legal existente e trabalho rduo,  possvel resgatar um pas decente, em que as pessoas honestas no se sintam to idiotas ao pagar seus muitos impostos. 
LUS MAURCIO GONALVES E SILVA 
Itana, MG 

LYA LUFT 
Havia muito tempo que no lia algo to real e til como o tema explorado pela escritora Lya Luft em seu artigo "A vida real" (24 de junho). De fato, muitos de nossos acadmicos nefitos em idade e para a vida pretendem, com sua graduao, uma nova etapa na vida, j sem problemas a ser enfrentados nesse mundo competitivo e muitas vezes problemtico. Muitos deles, esquecendo-se da saga de seus antepassados, incluindo os mais prximos  seus pais , so capazes de dizer que j encontraram "seu prato" feito e, por isso mesmo, a determinao na construo de sua carreira segue parmetros menos equilibrados. Os citados "conselhos de Bill Gates" so exemplares, mas nem sempre ousaramos repeti-los numa festa de formatura no momento atual, at mesmo pela possibilidade de sermos mal compreendidos. Agora, o dcimo conselho, de autoria da colunista Lya, esse, sim, merece todo amplexo e divulgao. 
EVARISTO ANANIA DE PAULA 
Jata, GO 

Tenho 36 anos, sou pai de dois filhos e preocupo-me com a educao deles. Percebo que, mesmo no querendo, sou da gerao da superproteo e ajo muitas vezes exageradamente. Sou aquele tipo de pai com "funes de me". Com inteno de proteger, percebo atrapalhar. Quando sou duro, fico com a conscincia pssima, mesmo sabendo que  para o bem deles. Agradeo a Lya por nos lembrar com seu texto que fazer o bem na educao no  sinnimo de agradar. 
CLUDIO ABREU MARTINS DE LIMA 
Braslia, DF 

 fato que os jovens brasileiros tm sido muito acomodados, queixosos, querendo que tudo acontea como num passe de mgica. Eles precisam entender que nada na vida  to fcil assim, que tudo  conquistado com muita luta, cansao, renncia de coisas suprfluas que s atrapalham o caminhar. O "discurso de Bill Gates"  pertinente para essa gerao. Quanto ao momento enfrentado pelo povo brasileiro, Lya d o conselho de, "na prxima vez, votar direito"  mas votar em quem, se os polticos se apresentam como "os salvadores da ptria", so eleitos e depois s "salvam a si mesmos"? Que tal uma lei que puna para sempre tais "polticos"? , talvez isso seja sonho numa vida to real. 
SAUL BRITO DA SILVA 
Coaraci, BA 

EDUCAO NA FINLNDIA 
Ao ler a reportagem especial "Voando para o futuro" (24 de junho) descobri, aos 72 anos, um lugar chamado Finlndia, onde os meus sonhos esto concretizados. Sem dvida, precisamos de uma escola que prepare os alunos para o mundo cada vez mais globalizado e os ensine a se adaptar ao novo, a se virar diante do inesperado, a criar e a inovar.  assim que entendo a educao. Agradeo a VEJA pela reportagem e por me trazer de volta a esperana de um mundo melhor. Resta ao Brasil acordar do bero esplndido. 
MARIA REGINA ANGEIRAS 
Rio de Janeiro, RJ 

Nota 10 para a inspiradora reportagem assinada pela jornalista Monica Weinberg. A premente e indispensvel revoluo na qualidade do processo educativo deve ser a soma de fatores estimulantes, como o raciocnio, a criatividade e o desenvolvimento individualizado, com outras aes de cunho estrutural, que incluam a valorizao do professor, o uso adequado das ferramentas tecnolgicas e uma abordagem pedaggica que priorize um contedo voltado para aplicaes prticas no dia a dia. O resultado ser a multiplicao do rendimento escolar dos alunos e a formao de uma sociedade inclusiva, preparada para promover a to almejada reduo das desigualdades sociais. 
MAURO WAINSTOCK 
Rio de Janeiro, RJ 

MAIORIDADE PENAL 
A reportagem "Pelo fim da impunidade" (24 de junho), sobre a diminuio da maioridade penal, trouxe esperana para a sociedade brasileira, que j est cansada de viver em um pas guiado pela impenitncia.
FELIPE ALEXANDRE ALVES UECHI 
Campo Grande, MS 

NOVA ENCCLICA DO PAPA 
VEJA fez um belo trabalho ao relatar que a encclica Laudato Si  uma carta de intenes endereada para alm da Igreja, tratando de um impasse sobre o qual a Igreja, sem ter palavra definitiva, no deve silenciar ("O Evangelho verde de Francisco", 24 de junho). 
LICINHA DESLANDES 
Belo Horizonte, MG 

A despeito de a Igreja ter tido papas que influenciaram o curso dos acontecimentos, Francisco vem demonstrando sensibilidade com assuntos importantes que foram deixados de lado ou ocultados pela Santa S. Agindo com humildade e reconhecendo que a Igreja no detm o conhecimento de tudo, o atual papa pode entrar para a histria do catolicismo. 
PETUEL PREDA 
So Paulo, SP 

Correo: ao contrrio do que foi publicado no Radar ("Ex-miss de prestgio", 24 de junho), Cibele Mazzo, demitida do Ministrio dos Esportes em maio, no est trabalhando na Autoridade Pblica Olmpica

PARA SE CORRESPONDER COM A REDAO DE VEJA: as cartas para VEJA devem trazer a assinatura, o endereo, o nmero da cdula de identidade e o telefone do autor. Enviar para: Diretor de Redao. VEJA - Caixa Postal 11079 - CEP 05422-970 - So Paulo - SP: Fax: (11) 3037-5638; e-mail: veja@abril.com.br. Por motivos de espao ou clareza, as cartas podero ser publicadas resumidamente. S podero ser publicadas na edio imediatamente seguinte as cartas que chegarem  redao at a quarta-feira de cada semana.


1#7 BLOGOSFERA
EDITADO POR KTIA PERIN kperin@abril.com.br

COLUNA
REINALDO AZEVEDO
"MULHER SAPIENS"
Por Tup! Ns, os humanos modernos, somos do gnero "Homo", da espcie Homo sapiens. Dilma fez uma salada taxinmica que resultou no que s pode ser um gracejo, a "mulher sapiens", j que "homo" de Homo sapiens no se refere nem a homem nem a mulher  nem ao ser humano como o conhecemos, que pertence ao gnero "homo", mas no  o nico. www.veja.com/reinaldoazevedo 

CIDADES SEM FRONTEIRAS
MARIANA BARROS
TRNSITO 
Todo mundo acha que o trnsito de So Paulo precisa melhorar, mas pouqussimos esto dispostos a fazer algo para que isso acontea. Uma pesquisa revela que, para 54,3% dos entrevistados, a prefeitura no deve proibir as pessoas de estacionar o carro na rua. Outros 57,7% afirmam que no usariam bicicleta mesmo que houvesse uma ciclovia ligando sua casa aos locais aonde precisam ir. www.veja.com/cidadessemfronteiras 

NOVA TEMPORADA
FERNANDA FURQUIM
HANNIBAL
A NBC decidiu cancelar a quarta temporada de Hannibal. A srie, apesar dos elogios da crtica, nunca conseguiu a audincia desejvel. Criada para ter sete temporadas, Hannibal acompanha as investigaes de um agente do FBI que se alia ao mdico Hannibal Lecter para caar um assassino em srie, www.veja.com/temporada 

O CAADOR DE MITOS
ECOPRAGMTICOS
Muita gente acredita que uma vida sustentvel exige entrar em harmonia com a natureza  viver entre as rvores, construir casas de madeira ou comer alimentos orgnicos. Um grupo de ambientalistas lanou na semana passada um manifesto com a afirmao oposta: a melhor forma de reduzir o impacto humano sobre o meio ambiente  com inovao, tecnologia, agricultura intensiva e cidades com milhes de pessoas. "Intensificar diversas atividades humanas  principalmente agricultura, extrao de energia e reflorestamento  de modo que usem menos energia e interfiram menos no mundo natural  a chave para  dissociar o desenvolvimento humano dos impactos ambientais", dizem os autores do "Ecomodernist Manifesto", que so, em boa parte, professores de universidades britnicas e americanas. www.veja.com/cacadordemitos

MUNDO LIVRE
"A SRIA  UM PAS ESTUPRADO"
Desde 2011, 4 milhes de pessoas j fugiram da guerra civil na Sria. A cientista poltica Sara Ajlyakin  uma delas. Ela militou contra o regime do ditador Bashar Assad e atualmente vive no Brasil. Em conversa com os jornalistas Nathalia Watkins e Diego Braga Norte, Sara fala sobre o paradeiro dos familiares espalhados pelo mundo e do irmo, que largou os estudos de engenharia ambiental para organizar um grupo de luta armada pela liberdade do pas. "O lugar onde eu nasci e cresci no existe mais", diz. www.veja.com/mundolivre

CLUBE DO LIVRO
MRIO DE ANDRADE
No septuagsimo aniversrio da morte do escritor Mrio de Andrade, a revelao de uma carta em que ele assume sua homossexualidade e a edio de um livro indito convidam  releitura e  reavaliao de sua obra. "Ai, que preguia", diria seu grande heri, Macunama? No programa Clube do Livro, os jornalistas Carlos Graieb, Rinaldo Gama e Jernimo Teixeira conversam sobre o lugar do escritor no movimento modernista e na literatura brasileira, www.veja.com/clubedolivro

 Esta pgina  editada a partir dos textos publicados por blogueiros e colunistas de VEJA.com
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2# PANORAMA 1.7.15

     2#1 IMAGEM DA SEMANA  E AQUELA DO GREGO?
     2#2 DATAS
     2#3 CONVERSA COM ROBSON TRINDADE  COMO PARECER HONESTO
     2#4 NMEROS
     2#5 SOBEDESCE
     2#6 RADAR
     2#7 VEJA ESSA

2#1 IMAGEM DA SEMANA  E AQUELA DO GREGO?
A poucos dias de um possvel calote, um momento para aliviar as tenses na EU

No tem graa nenhuma o motivo pelo qual os primeiros-ministros Alexis Tsipras, da Grcia, Matteo Renzi, da Itlia, e Angela Merkel, da Alemanha, entre outros lderes da Unio Europeia, se reuniram em Bruxelas na quinta-feira 25, depois de meses de negociao e a apenas cinco dias do prazo de pagamento de uma dvida da Grcia com o Fundo Monetrio Internacional (FMI). Sem um novo emprstimo da UE, o governo teria de dar um calote no fundo e nos aposentados gregos. Os credores queriam mais garantias de que Tsipras aprofundaria os cortes nos gastos pblicos. O grego, eleito com a promessa de no seguir com os programas de austeridade, fez concesses a conta-gotas. A reunio de quinta-feira no deu em nada, e uma deciso foi adiada para sbado 27. Apesar da corda no pescoo de Tsipras, e da presso sobre Renzi e Merkel para encontrar uma sada para o impasse, os trs riam como bons amigos adolescentes numa festa de formatura. Estariam compartilhando piadas sobre a crise que circulam em seu pas? Algumas possibilidades: Merkel: "Um alemo, um italiano e um grego entram em um bar. O alemo paga a conta". Renzi: "Schettino, o capito do cruzeiro Costa Concrdia, foi convocado pelas lideranas da zona do euro para explicar como se deve evitar o naufrgio de um navio". Tsipras: "Um italiano e um grego perguntam a Deus quando seu pas conseguir pagar suas dvidas. 'Em 100 anos, no caso da Itlia', responde Deus. 'Quanto  Grcia, no sei. Eu j vou estar morto.'" Fora das reunies de cpula, estes so os sentimentos preponderantes: os alemes esto cansados de pagar pelos erros dos outros, os europeus em geral querem a Grcia fora do euro e os gregos se sentem abandonados por Deus e todo mundo. 
DIOGO SCHELP


2#2 DATAS
MORRERAM
James Horner, msico americano que se consagrou compondo para o cinema. Seu trabalho em Titanic (1997) lhe rendeu dois Oscar: um pela trilha sonora e outro pela cano My Heart Will Go On, sucesso feito em parceria com Will Jennings, na voz de Celine Dion. Nascido em Los Angeles, Horner comeou a tocar piano aos 5 anos. Morando em Londres, estudou no Royal College of Music. De volta aos Estados Unidos, graduou-se na University of Southern California e doutorou-se pela University of California, em Los Angeles. Chegou a compor para filmes B antes de se destacar pelas msicas de A Dama de Vermelho (1979). Com Aliens (1986), recebeu a primeira das dez indicaes ao Oscar que colecionaria ao longo da carreira. O msico trabalhou ainda em Campo dos Sonhos (1989), Corao Valente (1995), Uma Mente Brilhante (2001) e Avatar (2009). Dia 22, aos 61 anos, em decorrncia da queda de seu turbolice, pilotado por ele mesmo, na Califrnia. 

Laura Antonelli, atriz italiana celebrizada pelas comdias erticas que estrelou nos anos 70. Formada em educao fsica, Laura Antonaz  esse era o nome de batismo da menina que nasceu em Pola, hoje pertencente  Crocia  comeou a fazer comerciais e logo chamou ateno por sua beleza. Convidada por um diretor, estreou no cinema, interpretando pequenos papis. Foi com Malcia (1973), de Salvatore Samperi, que ganhou o status de smbolo sexual. Na sequncia, vieram O Inocente (1976), de Luchino Visconti, e Esposamante (1977), de Marco Vicrio. Sua atuao cinematogrfica foi abreviada pela realizao de plsticas malsucedidas e pela condenao, em 1991, por porte e trfico de drogas  a sentena s seria revertida na dcada seguinte. Na ocasio, deprimida, Laura pediu: "Esqueam-me". Foi atendida. Dia 22, aos 73 anos, de infarto, em Ladispoli, Itlia. 

Cristiano Arajo, cantor sertanejo goiano conhecido pelos hits Efeitos, Bara Bara e Maus Bocados. Nascido em Goinia, numa famlia de msicos, aos 9 anos j se apresentava em pblico. Sua carreira deslanchou em 2011, exatamente a partir de Efeitos. Com mais de 250 milhes de acessos em seu canal oficial no YouTube, Arajo  que gravou dois lbuns em estdio e trs ao vivo, alm de trs DVDs  vinha cumprindo uma agenda de 280 shows por ano. Na semana passada, regressando de uma apresentao, ele se sentou no banco traseiro de uma Range Rover que acabou saindo da pista e capotando. Sua namorada, Allana Moraes, de 19 anos, que o acompanhava, teve morte imediata. O cantor chegou a ser socorrido, mas no resistiu. Dia 24, aos 29 anos, em Gois. 

Luiz Carlos Nunes da Silva, ex-volante e ex-tcnico carioca, dolo do Flamengo. Chamado de "Carlinhos Violino", por sua elegncia nos gramados, recebeu, no fim da carreira, um prmio raro, o Belfort Duarte, dado a jogadores que nunca haviam sido expulsos. Como meio-campista, venceu o Torneio Rio-So Paulo (1961); na funo de treinador, ganhou o Brasileiro em 1987 e 1992. Dia 22, aos 77 anos, de insuficincia cardaca, no Rio. 

Antonio Augusto Fagundes, estudioso das tradies gachas. Nascido em Inhandu (RS), Nico Fagundes era conhecido sobretudo pelo programa Galpo Crioulo, que apresentou por mais de trs dcadas na RBS. Foi ainda jornalista, compositor e poeta. Dia 24, aos 80 anos, em Porto Alegre. 


2#3 CONVERSA COM ROBSON TRINDADE  COMO PARECER HONESTO
Robson Trindade comeou a carreira como cabeleireiro. Hoje, presta consultoria de estilo e comportamento a empresrios e polticos. J atendeu mais de 100 engravatados, incluindo integrantes do PT e do PSDB.

O que querem os polticos que o procuram? 
Principalmente passar a imagem de indivduos honestos e ticos. 

Como isso  possvel? 
Com uma engenharia de imagem. Palpito at sobre o modelo de carro e a maneira de entregar o carto de visita  com as duas mos, para transmitir afetividade. Uma pessoa elegante passa credibilidade, mas, para ganhar a confiana do eleitorado, esbanjar com relgios muito caros, por exemplo, no  bom. Outra orientao  optar por um traje mais simples em passeatas. Um muito alinhado pode distanciar o pblico. 

Quais vcios dos polticos so mais difceis de modificar? 
Eles costumam viajar prontos para o evento de que vo participar e, invariavelmente, chegam amarrotados. No pode. Outro vcio  usar roupa apertada. Eles passam a ter muitas mordomias, engordam e continuam usando as mesmas peas antigas. 

H alguns anos, houve uma febre de implantes capilares em Braslia. Foi o senhor que estimulou a prtica? 
Eu venho pregando h anos: o cabelo  muito importante para a imagem. O careca passa a impresso de desgaste, e uma prtese no fica to natural quanto o implante.  

Os polticos aplicam Botox? 
Sim. Os polticos de hoje no saem do dermatologista. Eventualmente at se encontram na sala de espera das clnicas que indico. Fazem limpeza de pele, preenchimento para suavizar o bigode chins, corrigem o nariz... 

A qual poltico o senhor gostaria de dar algumas sugestes? 
Adoraria atender o Alckmin. Gosto dele, mas no d para usar uma cala na altura do peito ou aqueles fiapos de cabelo para tentar esconder a careca. 

Alguma ressalva  aparncia de Dilma ou Acio? 
Acio aparece muito sem terno, s de camisa. Transmite descontrao alm da conta. No gosto do sorriso da Dilma. Teria de melhorar aquele ar de deboche e os vcios de linguagem. 


2#4 NMEROS
7 em cada dez vtimas fatais de acidente nas estradas de So Paulo que estavam no banco de trs do veculo no usavam o cinto de segurana, segundo levantamento da Artesp de 2011 a 2014. 
6,5 vezes cresce o risco de morte tambm para os ocupantes dos bancos dianteiros em uma coliso frontal se os passageiros de trs estiverem sem o acessrio, segundo o peridico Lancet. Numa batida a 50 quilmetros por hora, o impacto de um corpo contra os bancos da frente aumenta cinquenta vezes. 
127 reais  a multa para passageiros que no usam cinto de segurana no banco traseiro, obrigatrio no Brasil desde 1997, mas desprezado nas estradas por um em cada dois brasileiros. 


2#5 SOBEDESCE
SOBE
Amrica Central -  Trs pases da regio - Panam, Costa Rica e Porto Rico - lideram o ranking do Gallup-Healtheways que mede a sensao de bem-estar dos cidados de 145 pases. O Brasil  o 15. 
Enem -  A USP decidiu destinar 13% das vagas de seus cursos a alunos que tirarem as melhores notas no exame. 
Guerra do Uber -  Taxistas de Paris depredaram setenta carros de motoristas independentes a servio do aplicativo.

DESCE
Europa - O continente no ter nenhum pas entre os cinco mais ricos do mundo em 2050, aponta estudo da Economist Intelligence Unit. Hoje, Alemanha e Reino Unido ocupam a quarta e a quinta colocaes. 
Schettino -  O comandante que abandonou o Costa Concrdia decidiu escrever suas memrias e dedic-las s 32 vtimas do naufrgio pelo qual foi considerado culpado. 
Foie gras -  O prefeito Fernando Haddad sancionou lei que probe a venda do produto em So Paulo. Restaurantes tero 45 dias para liquidar o estoque.


2#6 RADAR
LAURO JARDIM ljardim@abril.com.br

 LAVA-JATO
SUSPENDE TUDO 1
No despacho em que mudou o status da priso do diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar de temporria para preventiva, Srgio Moro diz que s h uma maneira de os executivos da empreiteira sarem da cadeia: as empresas nas quais o grupo tem participao precisaro suspender todos os contratos com os governos federal, estadual e municipal. 

SUSPENDE TUDO 2 
Levada s ltimas consequncias, a proposta esbarra na Olimpada. A Odebrecht est erguendo o Parque Olmpico, um dos principais centros da competio, e a Vila dos Atletas. 

 GOVERNO 
TE CUIDA, DILMA 
Se a votao no TCU das pedaladas de Dilma Rousseff fosse hoje,  o governo perderia. Como ainda faltam vinte dias, a histria pode, claro, mudar. Mas o clima  ruim. O governo j detectou o mau humor. 

SEM CHO 
O prprio Palcio do Planalto reconhece: nas duas ltimas semanas, ruiu todo o esforo de governabilidade feito logo aps as manifestaes de ruas de maro. 

 PT 
NO ME ABANDONE 
Joo Vaccari Neto mandou recados  cpula do PT. Preso, sente-se abandonado pelos velhos companheiros. Esse  o motivo de, na quinta-feira, uma nota oficial do PT ter voltado a defender Vaccari.  

DE CORPO PRESENTE 
Dias antes de falar a padres e pastores no seu instituto que "Dilma est no volume morto e o PT abaixo do volume morto", entre outras crticas, Lula havia feito um discurso praticamente igual para a prpria presidente da Repblica. Foi num almoo para poucos no Palcio da Alvorada, em que estava presente ainda Aloizio Mercadante. Ou seja, o contedo das reclamaes no era novidade para Dilma - o que a surpreendeu foi a sem-cerimnia de tornar pblicas as queixas. Os lamentos de Lula estendem-se, de acordo com o que tem dito a interlocutores nas ltimas semanas, ao fato de Dilma, em sua avaliao, s ouvir Mercadante e Jos Eduardo Cardozo - e, por exemplo, excluir Jaques Wagner do dia a dia das decises polticas.  

 ECONOMIA 
MODOS DE AJUSTAR 
Um estudo feito por economistas de uma gestora de investimentos de So Paulo comparando os pases que promoveram ajustes fiscais desde a crise de 2008  muito claro quanto aos resultados alcanados. Se o pas opta por um ajuste baseado em corte de gastos, a recuperao comea a aparecer em doze meses. Se for por meio do aumento de impostos, a volta do crescimento se dar entre o segundo e o terceiro anos a partir do incio do processo. O Brasil est mais para o segundo caso.  

 CULTURA 
CARTAS LACRADAS 
Depois da polmica que envolveu Mrio de Andrade, a Casa de Rui Barbosa tem um abacaxi semelhante para descascar nas prximas semanas. Um novo requerimento na CGU pede acesso ao arquivo pessoal do escritor Pedro Nava. So quatro as cartas de Nava que esto lacradas, longe da vista dos pesquisadores. 

 FUTEBOL 
MARCAO CERRADA 
A Receita Federal est marcando em cima de Neymar como poucos zagueiros. Alm de sofrer um processo administrativo de arrolamento de bens (que acompanha a movimentao patrimonial do cidado), Neymar foi autuado duas vezes na declarao de pessoa fsica  em 2014 e 2015. O craque do Barcelona est recorrendo. Quem conhece a causa diz que a discusso com o Fisco est na casa dos milhes. 

 MMA 
MAIS UM ROUND 
Anderson Silva recebeu nos ltimos dias o resultado de uma contraprova de mais um exame antidoping, feita por um laboratrio americano. Deu negativo. Anderson, que perdeu todos os patrocinadores que tinha aps sua suspenso do UFC, pretende usar o exame para voltar  ribalta. 


2#7 VEJA ESSA
EDITADO POR RIALDO GAMA

Nenhuma civilizao nasceu sem ter acesso a uma forma bsica de alimentao. E aqui ns temos uma, como tambm os ndios e os indgenas americanos tm a deles, ns temos a mandioca. (...) Ento, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil." 
Quando ns criamos uma bola dessas (feita de folha de bananeira na Nova Zelndia), ns nos transformamos em Homo sapiens ou mulheres sapiens. 
Eu no quero falar de fraternidade, eu quero dizer que ns nos transformaremos em irmos. 
DILMA ROUSSEFF, presidente da Repblica (PT), no lanamento dos Jogos Mundiais dos Povos Indgenas, em Braslia.  

Eu no quero falar sobre o que eu no sei. O que foi dito  que o Instituto Lula recebeu dinheiro, e pode receber. Foi dito que o presidente Lula recebeu por palestras, e isso tambm pode. Se houve desvio para fins polticos, eu no sei. Mas as minhas palestras eu dou e vocs assistem, n? - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO, ex-presidente da Repblica (PSDB), na sede do instituto que leva o seu nome, em So Paulo 

Quem  do Rio sabe que agosto ainda  ms de ressaca. Mas tem uma vantagem: ressaca passa. - JOAQUIM LEVY, ministro da Fazenda, carioca, referindo-se  situao da economia brasileira 

Vemos o pas com mais desconfiana. Aqui, ouo que existe uma crise mundial. No sei onde enxergam essa crise, porque China, EUA e Alemanha no esto em crise. O que temos no Brasil  um problema caseiro.  PHILIPP SCHIEMER, presidente da Mercedes-Benz no pas, em entrevista  Folha de S.Paulo   

No h crase (...), o a  apenas a preposio nesse caso. Bituca (apelido de Milton Nascimento) no  uma mulher, no  um nome em que voc pudesse usar o artigo definido feminino antes. (...) Esse  um erro que eu acho idiota. (...) Tem que saber portugus. - CAETANO VELOSO, cantor e compositor, em vdeo gravado depois que a equipe que cuida de suas redes sociais escreveu "Homenagem  Bituca" em um post 

Estou em boa forma. (...) Mais velho, mas no obsoleto. - ARNOLD SCHWARZENEGGER, na estreia europeia de O Exterminador do Futuro: Gnesis, no qual volta a fazer o papel do ciborgue que o tornou conhecido mundo afora, no primeiro filme da franquia, lanado h 31 anos 

Eu rejeito a maioria dos papis que me oferecem. Eu simplesmente me sinto muito velho, especialmente para comdias romnticas. E velho demais para o mundo do showbiz em geral. - HUGH GRANT ator britnico, no site F5 

Um desfile no  feito apenas de roupas.  feito de emoes. - RICCARDO TISCI, estilista italiano, diretor criativo da Givenchy, na ELLE de julho, que chega s bancas nesta semana 

EPGRAFE DA SEMANA 
A pretexto do atual cenrio poltico 
Os humildes sofrem quando os poderosos combatem entre si. - FEDRO, fabulista latino (sc. I) 
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3# BRASIL 1.7.15

     3#1  SOMBRA DO EMPREITEIRO
     3#2 DIZ-ME PARA QUEM LIGAS
     3#3 ABAIXO DO VOLUME MORTO

3#1  SOMBRA DO EMPREITEIRO
Ricardo Pessoa revela detalhes do esquema de corrupo da Petrobras e entrega a lista dos beneficiados com o dinheiro desviado: as campanhas eleitorais de Dilma e Lula, deputados, senadores e ministros do governo.
ROBSON BONINI

A LISTA DOS ACUSADOS
Campanha de Dilma em 2014   7., milhes de reais
Campanha de Lula em 2006  2,4 milhes de reais
Ministro Edinho Silva (PT)   COMO TESOUREIRO, ARRECADOU DINHEIRO PARA A CAMPANHA DE DILMA DE 2014
Ministro Aloizio Mercadante (PT)  250.000 reais
Senador Fernando Collor (PTB)   20 milhes de reais
Senador Edison Lobo (PMDB)   1 milho de reais
Senador Gim Argello (PTB)   5 milhes de reais
Senador Ciro Nogueira (PP)   2 milhes de reais
Senador Aloysio Nunes (PSDB)  200.000 reais
Senador Benedito de Lira (PP)  400.000 reais
Deputado Jos de Fillipi (PT)  750.000 reais
Deputado Arthur Lira (PP)   1 milho de reais
Deputado Jlio Delgado (PSB)  150.000 reais
Deputado Dudu da Fonte (PP)  300.000 reais
Prefeito Fernando Haddad (PT)  2,6 milhes de reais
O ex-tesoureiro do PT Joo Vaccari Neto   15 milhes de reais
O ex-ministro Jos Dirceu   3,2 milhes de reais
O ex-presidente da Transpetro Srgio Machado   1 milho de reais

ACHAQUE NA CAMPANHA DE 2014
Ricardo Pessoa conta como foi persuadido "de maneira bastante elegante" a contribuir para o caixa do PT.

Voc tem obras na Petrobras (...
(...) o senhor quer continuar tendo?
Foi assim, segundo Ricardo Pessoa, a abordagem de Edinho Silva antes de pedir dinheiro para a campanha de Dilma.

     Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, tem contratos bilionrios com o governo. Ele  apontado como o chefe do clube dos empreiteiros investigados pela Operao Lava-Jato e contratante das palestras do ex-presidente Lula. Desde a sua priso, em novembro passado, ele ameaa contar em detalhes como petistas e governistas grados se beneficiaram do maior esquema de corrupo da histria brasileira. Nos ltimos meses, Pessoa pressionou os detentores do poder  por meio de bilhetes escritos a mo  a ajud-lo a sair da cadeia e livr-lo de uma condenao pesada. Ao mesmo tempo, negociava com as autoridades um acordo de delao premiada, em que se oferecia para revelar o muito que testemunhou graas ao acesso privilegiado aos gabinetes de Braslia. O Ministrio Pblico queria extrair dele todos os segredos da engrenagem criminosa que desviou pelo menos 6 bilhes de reais dos cofres pblicos. Essa negociao arrastada e difcil acabou na ltima semana, quando o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou o acordo de colaborao firmado entre o empresrio e os procuradores. 
     VEJA teve acesso aos termos desse acerto. O contedo  demolidor. As confisses do empreiteiro deram origem a quarenta anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo. Em cinco dias de depoimentos prestados em Braslia, Pessoa descreveu como financiou campanhas  margem da lei e distribuiu propinas. Ele disse que usou dinheiro  do petrolo para bancar despesas de dezoito figuras coroadas da Repblica. Foi com a verba desviada da estatal que a UTC doou dinheiro s campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. Foi com ela tambm que garantiu o repasse de 3,2 milhes de reais a Jos Dirceu, uma ajudinha providencial para que o mensaleiro pagasse suas despesas pessoais. A UTC ascendeu ao panteo das grandes empreiteiras nacionais nos governos do PT. Ao Ministrio Pblico, Pessoa fez questo de registrar que essa caminhada foi pavimentada com propinas. Altas somas. O empreiteiro delatou ao STF essas somas que entregou aos donos do poder, segundo ele, mediante achaques e chantagens. Relatou que teve trs encontros em 2014 com Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma e atual ministro de Comunicao Social. Nos encontros, disse, ironicamente, ter sido abordado "de maneira bastante elegante". Contou ele: "O Edinho me disse: 'Voc tem obras na Petrobras e tem aditivos, no pode s contribuir com isso. Tem que contribuir com mais. Eu estou precisando'". A abordagem elegante lhe custou 10 milhes de reais, dados  campanha de Dilma. Um servidor do Palcio chamado Manoel de Arajo Sobrinho acertou os detalhes dos pagamentos diretamente com Pessoa. Documentos entregues pelo empresrio mostram que foram feitos dois depsitos de 2,5 milhes de reais cada um, em 5 e 30 de agosto de 2014. Depois dos pagamentos, Sobrinho acertou com o empreiteiro o repasse de outros 5 milhes para o caixa eleitoral de Dilma. Pessoa entregou metade do valor pedido e se comprometeu a pagar a parcela restante depois das eleies. S no cumpriu o prometido porque foi preso antes. Doar para campanhas no  crime, desde que a operao seja declarada e os recursos tenham origem lcita. Foi assim? Pessoa deixou claro que no. "O senhor tem obras no governo e na Petrobras. O senhor quer continuar tendo?", disse-lhe Edinho Silva. Fica a indagao para a Justia: ameaar doadores de campanha  lcito? 


SENHA: TULIPA?... CONTRASSENHA: CANECO!
A campanha de Lula  reeleio recebeu dinheiro sujo das empreiteiras envolvidas no petrleo

     Em 2006, Lula conquistou um novo mandato ao derrotar, em segundo turno, o tucano Geraldo Alckmin. Com a vitria, ele adotou como prtica zombar dos efeitos eleitorais do mensalo, descoberto um ano antes e at ento o maior esquema de corrupo poltica da histria do pas. As denncias de compra de apoio parlamentar, dizia o lder petista, no haviam sido capazes de conter o projeto de poder do partido. Tambm pudera. Sem que ningum soubesse, na campanha  reeleio, Lula contou com a ajuda do petrolo e recebeu uma bolada desviada dos cofres da Petrobras. Segundo o empreiteiro Ricardo Pessoa, a UTC contribuiu com 2,4 milhes de reais em dinheiro vivo para a campanha  reeleio de Lula, numa operao combinada diretamente com Jos de Filippi Jnior, que era o tesoureiro da campanha e hoje trabalha como secretrio de Sade da cidade de So Paulo. Para viabilizar a entrega do dinheiro e manter a ilegalidade em segredo, o empreiteiro amigo de Lula e o tesoureiro do presidente-candidato montaram uma operao clandestina digna dos enredos rocambolescos de filmes sobre a mfia. 
     Pessoa contou aos procuradores que ele, o executivo da UTC Walmir Pinheiro e um emissrio da confiana de ambos levavam pessoalmente os pacotes de dinheiro ao comit da campanha presidencial de Lula. Para no chamar a ateno de outros petistas que trabalhavam no local, a entrega da encomenda era precedida de uma troca de senhas entre o pagador e o beneficirio. Ao chegar com a grana, Pessoa dizia "tulipa". Se ele ouvia como resposta a palavra "caneco", seguia at a sala de Filippi Jnior. A escolha da senha e da contrassenha foi feita por Pessoa com emissrios do tesoureiro da campanha de Lula numa choperia da Zona Sul de So Paulo. Antes de chegar ao comit eleitoral, a verba desviada da Petrobras percorria um longo caminho. Os valores saiam de uma conta na Sua do consrcio Quip, formado pelas empresas UTC, Iesa, Camargo Corra e Queiroz Galvo, que mantm contratos milionrios com a Petrobras para a construo das plataformas P-53, P-55 e P-63. Em nome do consrcio, a empresa sua Quadrix enviava o dinheiro ao Brasil. A Quadrix tambm transferiu milhares de dlares para contas de operadores ligados ao PT. 
     Pessoa entregou aos investigadores as planilhas com todas as movimentaes realizadas na Sua. Os pagamentos via caixa dois so a primeira prova de  que o ex-presidente Lula foi beneficiado diretamente pelo petrolo. At agora, as autoridades tinham informaes sobre as relaes lucrativas do petista com grandes empreiteiras investigadas na Operao Lava-Jato, mas nada comparvel ao testemunho e aos dados apresentados pelo dono da UTC. Depois de deixar o governo, Lula foi contratado como palestrante por grandes empresas brasileiras. Documentos obtidos pela Polcia Federal mostram que ele recebeu cerca de 3,5 milhes de reais da Camargo Corra. Parte desse dinheiro foi contabilizada pela construtora como "doaes" e "bnus eleitorais" pagos ao Instituto Lula. Conforme revelado por VEJA, a OAS tambm fez uma srie de favores pessoais ao ex-presidente, incluindo a reforma e a construo de imveis usados pela famlia dele. UTC, Camargo Corra e OAS esto juntas nessa parceria. De diferente entre elas, s as variaes dos apelidos, das senhas e das contrassenhas. "Brahma", "tulipa" e "caneco", porm, convergem para um mesmo ponto. 


O HOMEM DO PIXULECO
Era assim que Vaccari chamava a propina. 

     Homem do dinheiro, Joo Vaccari Neto  citado em diferentes trechos da delao de Ricardo Pessoa. O tesoureiro do PT aparece cobrando propina, recebendo propina, tratando sobre propina. O empreiteiro contou que conheceu Vaccari durante o primeiro governo Lula, mas foi s a partir de 2007 que a relao entre os dois se intensificou. Por orientao do ento diretor de Servios da Petrobras, Renato Duque, um dos presos da Operao Lava-Jato, Pessoa passou a tratar das questes financeiras da quadrilha diretamente com o tesoureiro. A simbiose entre corrupto e corruptor era perfeita, a ponto de o dono da UTC em suas declaraes destacar o comportamento diligente do tesoureiro: "Bastava a empresa assinar um novo contrato com a Petrobras que o Vaccari aparecia para lembrar: 'Como fica o nosso entendimento poltico?'". A expresso "entendimento poltico",  bvio, significava pagamento de propina no dialeto da quadrilha. Alis, propina, no. Vaccari, ao que parece, no gostava dessa palavra. 
     Como eram dezenas de contratos e centenas as liberaes de dinheiro, corrupto e corruptor se encontravam regularmente para os tais "entendimentos polticos". Joo Vaccari era conhecido pelos comparsas como Moch, uma referncia  sua inseparvel mochila preta. Ele se tornou um assduo frequentador da sede da UTC em So Paulo. Segundo os registros da prpria empreiteira, para no chamar ateno, o tesoureiro buscava "as comisses" na empresa sempre nos sbados pela manh. Ele chegava com seu Santa F prata, pegava o elevador direto para a sala de Ricardo Pessoa, no 9 andar do prdio, falava amenidades por alguns minutos e depois partia para o que interessava. Para se proteger de microfones, rabiscava os valores e os percentuais numa folha de papel e os mostrava ao interlocutor. O tesoureiro no gostava de mencionar a palavra propina, suborno, dinheiro ou algo que o valha. Por pudor, vergonha ou por mero despiste, ele buscava o "pixuleco". Assim, a reunio terminava com a mochila do tesoureiro cheia de "pixulecos" de 50 e 100 reais. Mas, antes de sair, um ltimo cuidado, segundo narrou Ricardo Pessoa: "Vaccari picotava a anotao e distribua os pedaos em lixos diferentes". Foi tudo filmado. 


PROPINA DE 15 MILHES
Foi quanto a UTC pagou ao PT por um nico contrato na Petrobras.

     Uma parte da delao premiada de Ricardo Pessoa se dedica exclusivamente ao sistema de arrecadao de propina montado por Joo Vaccari Neto, que est preso em Curitiba sob a acusao de operar a coleta do "pixuleco" que as empreiteiras do petrolo reservavam ao partido do governo. O empreiteiro conta que s por uma nica obra da Petrobras, a construo do Comperj, no Rio de Janeiro, a UTC destinou nada menos que 15 milhes de reais ao caixa clandestino do PT. Pessoa diz que o pagamento da propina era condio para que a empreiteira fosse escolhida para tocar o empreendimento. 
     O Comperj, um complexo petroqumico projetado para ampliar a capacidade de refino da Petrobras, comeou a ser construdo em 2006. Foi orado inicialmente em 6,1 bilhes de dlares, mas a conta j passa de 30 bilhes  e no h nem sinal de quando vai funcionar. O pacote de obras foi dividido. A UTC de Ricardo Pessoa ficou com o maior contrato, de 11,5 bilhes de reais, em consrcio com a Odebrecht e com a japonesa Toyo. 
     Pessoa contou tambm aos investigadores que o pagamento das "comisses" ficou a cargo dos integrantes do consrcio. A UTC foi encarregada de pagar ao PT. A Odebrecht, segundo ele, ficou responsvel pelo suborno entre aos polticos do Partido Progressista (PP), representado nas negociaes pelo ento diretor de Abastecimento da Petrobras, Paulo Roberto Costa, e pelo doleiro Alberto Youssef. Os pagamentos de propina ao PT no se limitavam ao perodo  eleitoral. Eram feitos, segundo o empreiteiro, "de modo contnuo", seja por meio de doaes oficiais, seja por repasses de dinheiro vivo. Nessa segunda modalidade, a transao era pilotada diretamente com Vaccari nos encontros realizados na sede da UTC e retratados na reportagem anterior. Nos documentos que anexou ao processo, Ricardo Pessoa incluiu vdeos das cmeras de segurana da empresa que colocam o tesoureiro petista na cena do crime. 
     As planilhas em poder do Ministrio Pblico demonstram que os repasses eram cuidadosamente contabilizados pelo empreiteiro, como se fosse uma conta-corrente. Havia a coluna dos "crditos" que o tesoureiro recebia como propina das obras da Petrobras e a dos "dbitos" com as dedues de pagamentos solicitados por Vaccari ou pelo PT, como as "consultorias" fajutas do ex-ministro Jos Dirceu (veja a matria na pg. 46). Sob o ttulo "JVN-PT" (Joo Vaccari Neto-PT), o documento traz valores pagos entre 2008 e 2013. Pessoa tambm informou os nmeros dos telefones celulares a que Vaccari costumava atender  e listou encontros em hotis de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde se reuniu com o petista para tratar do rateio da propina. "Nas principais obras da Petrobras existia um arranjo entre empresas concorrentes, que funcionava por intermdio de um pacto de no agresso e de fixao de prioridades na obra." O empreiteiro disse que pagava a propina ao PT para "evitar dificuldades no futuro e para manter a engrenagem funcionando". 


5 MILHES  O PREO DE UMA CPI
Foi quanto Gim Argello cobrou para "matar" a CPI da Petrobras em 2014.

     Quando parlamentares se empenharam em criar uma CPI para investigar denncias de corrupo na Petrobras, em meados do ano passado, todos sabiam o potencial de destruio que o caso tinha. Instalada no Senado logo depois das primeiras revelaes da Operao Lava-Jato, a comisso foi encerrada sem apurar absolutamente nada. E no foi por incompetncia, negligncia nem omisso. Sabe-se agora que congressistas foram pagos para fechar os olhos diante das evidncias de corrupo. Enquanto posavam perante as cmeras como defensores do contribuinte, nos bastidores os principais integrantes da CPI extorquiam os empresrios investigados pela Polcia Federal. A ttica  antiga: os senadores anunciam a inteno de convocar para depor os empreiteiros envolvidos no escndalo e depois negociam a no convocao. Ricardo Pessoa corria o risco de ser intimado a depor, e ele mesmo se encarregou de contornar o problema. Mas custou caro. Uma bolada de 5 milhes de reais. O pagamento, segundo ele, foi negociado pelo dono da UTC diretamente com o ento senador Gim Argello, lder do PTB e vice-presidente da comisso. O empresrio contou aos investigadores que as tratativas ocorreram por meio do senador porque ele exercia "forte influncia" sobre o presidente da CPI, Vital do Rego, o atual ministro do Tribunal de Contas da Unio, e sobre o relator da comisso, o deputado Marco Maia (PT-RS). Na "conversa" com Argello em Braslia, Ricardo Pessoa foi orientado a pagar os 5 milhes de reais em forma de "doaes oficiais" da UTC. O empreiteiro entregou s autoridades uma lista dos partidos que foram usados para receber o dinheiro e o nome do operador do esquema, um lobista chamado Paulo Roxo. Alm de Gim Argello, Pessoa cita o nome do deputado Jlio Delgado (PSB-MG), que, segundo ele, ganhou 150.000 reais na mesma operao. 


CONSULTORIA NA PAPUDA
A consultoria que no era consultoria.

     Depois de cair em desgraa durante o escndalo do mensalo, em 2005, o ex-ministro Jos Dirceu comeou a atuar como lobista nos bastidores do governo. Como a Operao Lava-Jato j mostrou, as "consultorias" prestadas por Dirceu a empreiteiras e outras empresas com interesses na mquina pblica renderam ao mensaleiro uma fortuna de 39 milhes de reais. Quando essa informao emergiu, Dirceu defendeu-se dizendo que havia realizado um trabalho legtimo de consultoria. As suspeitas de que contratos desses servios seriam, na verdade, simulacros para esconder propina das obras da Petrobras eram refutadas com veemncia pelos advogados do ex-ministro, que, temendo voltar  cadeia, e para provar que agia dentro da legalidade, se antecipou e encaminhou  Justia cpias de todos os contratos assinados e a relao de seus clientes. Embora suspeito, parecia legal. 
     A delao de Ricardo Pessoa, no entanto, mostra o que realmente fazia o consultor Dirceu. Ou melhor, o que no fazia. O dono da UTC contou aos investigadores que foi procurado pelo ex-ministro em meados de 2012. Dirceu, que exercia forte influncia sobre os operadores petistas da Petrobras  Renato Duque, por exemplo, o diretor de Servios que est preso, foi colocado no cargo por Dirceu , ofereceu ao empreiteiro os seus servios de consultor na prospeco de obras para a UTC junto ao governo do Peru. Ciente de que negar dinheiro a Dirceu poderia ser o comeo de graves problemas nos contratos da Petrobras, o empreiteiro no teve dvida. Fechou um contrato de 1,4 milho de reais com o mensaleiro. Trabalho? Promessas de abrir portas para a empreiteira em pases da Amrica Latina. Nada aconteceu.  
     Um ano depois, porm, a UTC renovou o contrato de consultoria por mais 906.000 reais. No ano seguinte, ainda sem ver nenhum resultado no trabalho do consultor, Ricardo Pessoa assinou um segundo aditivo, dessa vez no valor de 840.000 reais. E eis que surge a prova de que no havia mesmo servio algum a ser prestado. O empreiteiro contou aos investigadores que, em plena vigncia do primeiro aditivo, Jos Dirceu foi preso por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF). Recolhido ao Complexo da Papuda, em Braslia, o ex-ministro no teria mais como prospectar negcios para quem quer que fosse, muito menos em outro pas. Mas Dirceu era Dirceu. A pedido do prprio mensaleiro,  que alegava passar por dificuldades financeiras, a UTC continuou pagando a ele os gordos honorrios. O dinheiro era entregue ao irmo, Luiz Eduardo, e era debitado diretamente da conta-corrente de propina que a UTC administrava por intermdio de Joo Vaccari Neto. Alis, Ricardo Pessoa revelou que acertou a mesada de Jos Dirceu com o tesoureiro do PT, que autorizou o repasse de parte da propina diretamente ao mensaleiro. Assim como nos demais casos, Pessoa entregou ao Ministrio Pblico toda a contabilidade do dinheiro pago ao ex-todo-poderoso chefe da Casa Civil do governo Lula. Tambm dissecou os pagamentos detalhados do PT que, por ordem de Vaccari, foram canalizados para Jos Dirceu com o objetivo de quitar despesas pessoais e pagar aos seus advogados enquanto estava na cadeia. 


CONEXO NO TCU
A UTC pagava por informaes privilegiadas e acesso ao Tribunal de Contas da Unio.

     Alm de pagar propina para obter contratos no governo federal, o empreiteiro Ricardo Pessoa mantinha uma rede de informantes em rgos considerados estratgicos pela UTC. Um deles era o Tribunal de Contas da Unio (TCU). Na corte, que tem por atribuio fiscalizar o andamento das obras, identificar sinais de superfaturamento e punir eventuais desvios, o contato do empreiteiro era Tiago Cedraz, um jovem advogado de Braslia cujo escritrio virou grife entre as bancas da capital por causa do sobrenome que carrega. Tiago  filho do atual presidente do TCU, Aroldo Cedraz. Segundo Pessoa, o advogado tinha acesso privilegiado a informaes valiosas de interesse da UTC. O empreiteiro contou aos procuradores que, desde junho de 2012, o jovem Cedraz atuava como uma espcie de espio da UTC no TCU. Sem nenhum contrato ou registro em notas fiscais, Pessoa diz que pagava mensalmente a Tiago 50.000 reais em dinheiro vivo para obter o que ele chama de "informaes de inteligncia". O objetivo do empreiteiro era antecipar-se s aes de fiscalizao dos auditores do TCU e, assim, evitar problemas. 
     O advogado tambm alertava o empreiteiro quando um processo de interesse da UTC estava prestes a ser julgado pelos ministros  e atuava para solucionar a pendenga. Segundo Pessoa, Tiago dizia que tinha acesso irrestrito ao tribunal, inclusive na rea tcnica. "Tiago no chegava a antecipar o resultado do julgamento, mas, diante da notcia de um possvel resultado negativo, avisava 'tem de tirar de pauta, se no vai dar problema'", contou o empreiteiro. Ao ser perguntado sobre o porqu de ter feito os pagamentos, confessou, sem meias palavras: "contratar um trfico de influncia no TCU". Alm dos pagamentos mensais, Tiago Cedraz era remunerado quando havia uma questo mais grave a ser solucionada. Para fazer lobby em defesa da UTC num processo sobre a construo da usina nuclear de Angra 3, recebeu um extra de 1 milho de reais, segundo Ricardo Pessoa. O pagamento foi feito em espcie, em 23 de janeiro do ano passado. Uma parte do valor foi entregue em Braslia e a outra, retirada na sede da UTC. Os repasses a ele constam numa planilha intitulada "Tiago BSB", com 25 pagamentos feitos ao filho do ministro do TCU. Pessoa contou que, por vezes, o tesoureiro do partido Solidariedade, Luciano Arajo, retirava valores em nome de Tiago Cedraz. A VEJA, ele afirmou que nunca patrocinou nenhum caso da UTC no TCU e disse que est " disposio das autoridades para fornecer as informaes necessrias  correta compreenso dos fatos".


O SENADOR DE 20 MILHES
Foi quanto o grupo de Fernando Collor embolsou num nico negcio.

     Em troca de manter o seu apoio ao governo Lula, o senador Fernando Collor (PTB-AL) conseguiu emplacar o engenheiro Jos Zonis na diretoria de Operaes e Logstica da BR Distribuidora, uma subsidiria da Petrobras. Um excelente negcio  principalmente para o bolso do prprio senador. Depois da posse do diretor, Ricardo Pessoa foi procurado pelo empresrio Pedro Paulo Leoni Ramos. Ex-ministro de Collor e amigo pessoal do ex-presidente, "PP", como  conhecido, falou abertamente de seus planos. Disse que a BR Distribuidora estava no raio de influncia dele e ofereceu  UTC um pacote de 650 milhes de reais em contratos com a estatal. Em contrapartida, queria uma "comisso". Para convencer o empreiteiro, deixou claro que seu fiador no negcio era o amigo "Fernando" e, para provar que no era blefe, levou Ricardo Pessoa at Jos Zonis para uma primeira aproximao. O dono da UTC contou aos investigadores que, aps a reunio com o diretor, a empreiteira aceitou o acordo, ganhou os contratos e pagou a Pedro Paulo e a Fernando Collor nada menos que 20 milhes de reais. 
     Questionado sobre o suborno, Pessoa esclareceu que seguira a tabela de corrupo da Petrobras durante o governo Lula  o padro de 3% sobre o montante do contrato. O empreiteiro entregou ao Ministrio Pblico as planilhas com a data dos desembolsos e narrou detalhes de como o dinheiro foi repassado a Pedro Paulo Leoni Ramos. Disse que s aceitara fechar o negcio, inclusive adiantando parte do suborno, por saber que o senador alagoano estava por trs das tratativas. O ex-presidente da Repblica  investigado pelo Ministrio Pblico e pela Polcia Federal desde o incio da Operao Lava-Jato. Em abril do ano passado, os investigadores apreenderam no escritrio do doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do esquema de corrupo na Petrobras, comprovantes de depsitos bancrios na conta pessoal de Fernando Collor  num total de 50.000 reais. Quantia pequena se comparada aos volumes de propina movimentados pelos principais corruptos identificados at agora. Era apenas o comeo. Em delao premiada, Rafael ngulo, outro envolvido no escndalo, disse s autoridades que, em 2012, entregou outros 60.000 reais em dinheiro a Collor num apartamento em So Paulo. Mesmo assim parecia um suborno nfimo para algum com a biografia do ex-presidente. Com o depoimento de Ricardo Pessoa, fica evidente que tanto os depsitos em conta-corrente como os valores entregues em domiclio no passavam de gorjeta. Organizado, o empreiteiro anotou numa tabela as propinas repassadas ao grupo do senador. Os pagamentos comearam em dezembro de 2010 e se estenderam at julho de 2012, quando Jos Zonis se desentendeu com os padrinhos e acabou deixando a Petrobras. Para garantir os contratos, o empreiteiro deu um sinal de 2 milhes de reais e mais vinte parcelas de 900 .00. Total: 20 milhes. O tpico mensalo. 


A TURMA DO CAIXA DOIS
A lista inclui ministros, senadores, deputados...

     A UTC, como praticamente todas as grandes empreiteiras, financiou muitos polticos e partidos. Apenas na campanha de 2014, a empresa distribuiu quase 55 milhes de reais em doaes eleitorais, incluindo aquelas que camuflavam o dinheiro desviado dos contratos superfaturados da Petrobras. Ao seu acordo de delao, Ricardo Pessoa anexou uma lista com todas as contribuies da empreiteira  as legais, as aparentemente legais e as completamente ilegais. A relao dos clientes dessa ltima categoria compromete figuras importantes da Repblica. Segundo o empreiteiro, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, recebeu 500.000 reais para a sua campanha ao governo de So Paulo, em 2010. Desse total, 250.000 reais foram repassados ao ministro em dinheiro vivo. Mercadante nega: "Desconheo qualquer ao no contabilizada para a minha campanha". O caixa dois do empreiteiro envolve tambm o ex-tesoureiro das campanhas de Lula e de Dilma, o atual secretrio de Sade da prefeitura de So Paulo, Jos de Filippi Jnior. Ele recebeu 150.000 reais em doao oficial da UTC e outros 750.000 reais por fora para a sua campanha a deputado, em 2010. Para no chamar ateno, segundo Ricardo Pessoa, Filippi mandava um taxista de sua confiana buscar os pacotes de dinheiro na sede da empresa. O caixa dois do tesoureiro est registrado na planilha "Filippi Diadema" entregue pelo empreiteiro aos investigadores da Lava-Jato. 
     A lista dos beneficirios  extensa e envolve polticos de vrios partidos. O senador Aloysio Nunes Ferreira recebeu 300.000 reais oficialmente e outros 200.000 reais em dinheiro. Constam ainda o senador Ciro Nogueira (2 milhes), o senador Benedito de Lira (400.000), o deputado Artur Lira (1 milho) e o mensaleiro Valdemar Costa Neto (200.000). Na campanha de 2012, quem recebeu recursos de maneira irregular foi o prefeito de So Paulo, Fernando Haddad. Pessoa contou aos investigadores que foi procurado por Joo Vaccari, que pediu a ele que pagasse uma dvida de 2,6 milhes  de reais do PT com uma grfica. O gasto foi descontado da conta-corrente clandestina que o PT deixava sob a administrao da UTC. Pessoa tambm revelou que pagava para no ter problemas. O senador Edison Lobo recebeu 1 milho de reais para no atrapalhar as pretenses da empresa nas obras de Angra 3. J o ex-senador Srgio Machado recebeu 1 milho de reais como retribuio pelas gentilezas durante o perodo em que presidiu a Transpetro, uma subsidiria da Petrobras. As operaes polticas, quase sempre, eram bem-sucedidas. A exceo foi o deputado Dudu da Fonte. Lder do PP na Cmara, ele recebeu 300.000 reais da UTC em troca de indicao da empreiteira para uma obra no Paran. Ricardo Pessoa pagou, mas disse que, nesse caso, levou um tremendo "passa-moleque" do deputado. Todos os citados negam ter recebido dinheiro de caixa dois. 


3#2 DIZ-ME PARA QUEM LIGAS
Alexandrino Alencar, o diretor da Odebrecht envolvido na Lava-Jato, teve direito a trs telefonemas ao ser preso. Dois ele fez para os seus advogados. O terceiro foi para o Instituto Lula.
HUGO MARQUES

     Ao ser preso pela Polcia Federal, em mais uma etapa da Operao Lava-Jato, o empresrio Marcelo Odebrecht, presidente e dono da maior empreiteira do pas, ligou para a filha que estava em viagem ao exterior. Outros executivos alcanados pela autoridade policial tambm telefonaram a parentes e advogados para avis-los da ordem de priso. Nada mais natural. Essa  a regra em situaes assim. Regra que, como de costume, foi acompanhada de uma exceo reveladora. O at ento diretor de Relaes Institucionais da Odebrecht, Alexandrino Alencar, fez trs ligaes antes de seguir para a carceragem da PF em Curitiba. Ele falou com dois advogados e, na terceira chamada, acionou uma certa "Marta", funcionria do Instituto Lula, como mostra o auto de busca e apreenso publicado na pgina ao lado. A iniciativa intrigou os investigadores. Por que o executivo da Odebrecht recorreria  equipe do ex-presidente, que, at onde se sabe, no presta servios de assistncia jurdica a terceiros? O que ele teria de to urgente para informar, pedir ou exigir do petista? Essas perguntas continuam sem resposta, mas a dvida refora a suspeita de que Alencar pode ser a pea que falta para ligar definitivamente Lula ao maior esquema de corrupo da histria do pas. 
     Nos ltimos anos, o ex-presidente e o executivo construram uma slida relao de parceria. Quando ainda estava no poder, Lula tratou com Alencar da participao da Odebrecht na execuo do novo estdio do Corinthians, o time de corao do petista. J fora do Palcio do Planalto, tornou-se companheiro de empreitadas do diretor da construtora. Em 2011, Lula chefiou uma misso do governo brasileiro  Guin Equatorial e convidou Alencar para fazer parte da comitiva oficial. O convite provocou desconforto no Itamaraty. A Odebrecht tambm bancou viagens de Lula a outros pases africanos e latino-americanos, nos quais ele defendeu os interesses comerciais da construtora. A retribuio foi generosa. A empreiteira contratou Lula como palestrante e, de quebra, um sobrinho dele para trabalhar numa obra em Angola que conta com o financiamento do bom e velho BNDES. 
     Lula e a Odebrecht alegam que mantm uma relao transparente e legal. H  disposio das autoridades, no entanto, indcios de que Alencar, o parceiro de empreitadas do ex-presidente, tambm desempenhava funes menos nobres.  Delator do esquema, o operador Rafael ngulo Lopez disse em depoimento que Alencar era, ainda, o elo da Odebrecht com o petrolo. Lopez entregou aos investigadores comprovantes de depsitos de propina em contas no exterior providenciados, segundo ele, pelo executivo da Odebrecht. Outros dois delatores tambm apontaram Alencar como negociador do repasse de propinas. O doleiro Alberto Youssef, por exemplo, contou que se reuniu vrias vezes com Alencar para combinar a partilha do butim roubado da estatal. Foi com base nessas informaes que o juiz Srgio Moro decidiu na semana passada manter Alencar preso e transformar sua priso temporria em preventiva. "Alm das provas do envolvimento da Odebrecht no esquema criminoso de cartel, ajuste de licitaes e de propina, h prova material de proximidade entre Alberto Youssef e Alexandrino Alencar como j consignei na deciso anterior", registrou Moro. O Ministrio Pblico diz que boa parte da propina desembolsada pela empreiteira passou por contas e empresas nos Estados Unidos. Para identificar depositantes e beneficirios, as autoridades brasileiras pediram ajuda a seus correspondentes americanos  o que, mostra a histria recente,  timo para o andamento das investigaes e pssimo para os gatunos do dinheiro pblico. O cerco est se fechando. 

CORRUPO EM METSTASE 
Em outra frente, a Polcia Federal avana em mais um escndalo que tem o PT como protagonista. O governador de Minas Gerais, o petista Fernando Pimentel, agora  oficialmente investigado pela Operao Acrnimo, deflagrada a partir da descoberta de 113.000 reais a bordo de um avio particular que pousou em Braslia dois dias aps o primeiro turno das eleies do ano passado. Na aeronave estava Benedito de Oliveira Neto, o Ben, amigo de Pimentel. Em 2014, Ben atuou como tesoureiro informal da campanha de Pimentel. O caso j extrapola a suspeita de caixa dois. Os policiais descobriram que a mulher de Pimentel, Carolina Oliveira, recebeu cerca de 3,6 milhes de reais de empresas com interesses no BNDES no mesmo perodo em que o marido, como ministro do Desenvolvimento do governo Dilma, tinha o banco sob seu comando. Ben, segundo a PF, gerenciava o esquema. Em mensagens interceptadas, ele tratava Pimentel como "o chefe". Os policiais suspeitam que Ben usava dinheiro desviado dos cofres pblicos para bancar gastos eleitorais e despesas pessoais de Pimentel e Carolina. O empresrio tambm pagou contas do PT. H indicaes de que a atuao de Ben em 2014 no se restringiu a Minas. 


3#3 ABAIXO DO VOLUME MORTO
Em sua pior fase, o PT deve encolher, pela primeira vez em vinte anos, nas eleies de 2016. Candidatos ameaam abandonar a sigla e j h at quem troque de nome para se dissociar dela.
MARIANA BARROS E PIETER ZALIS

     Os petistas no tm um projeto de governo, s pensam em se eleger e arrumar uma boquinha no poder pblico. Diante de dificuldades, preocupam-se unicamente em salvar a prpria pele, preferencialmente sem prejuzo da boquinha conquistada. A constatao  do ex-presidente Lula, que, ao dizer isso (no original: "O PT perdeu um pouco do sonho, da utopia. A gente s pensa em cargo, em ser eleito, ningum trabalha de graa mais. Estamos querendo salvar nossa pele e nossos cargos ou criar um novo projeto?"), apenas ecoou a avaliao que grande parte dos brasileiros faz hoje do partido que ele ajudou a criar. 
     A popularidade do PT, que chegou a 27% na metade do primeiro mandato da presidente Dilma, est hoje em 11%, segundo o Datafolha.  pior do que os 15% que o partido exibia no melhor perodo do governo FHC, quando se achava na oposio. Pelos erros e crimes que cometeu, e ultimamente at mesmo quando acerta, o PT ofereceu farta munio aos crticos e decepcionou os que o apoiavam. Quatro de seus cardeais foram parar na cadeia no escndalo do mensalo e, agora, pelo menos dez dirigentes correm o mesmo risco com as investigaes do petrolo. No campo da economia, o fato de o governo Dilma ter de combater com o remdio amargo do ajuste fiscal a crise sem precedentes que ajudou a criar inspira a parte das crticas por motivos errados. 
     Com receio de serem tragados junto com a sigla para os subterrneos da impopularidade, prefeitos do PT tm procurado outros partidos com vistas a, como diria Lula, salvar a prpria pele nas eleies municipais de 2016. Em So Paulo, ao menos uma dzia deles vem tendo conversas nesse sentido com dirigentes do PSB, PMDB, PPS e PSD  caso, por exemplo, dos prefeitos Maurcio Moromizato, de Ubatuba, e Rafael Agostini, de Ja. O cenrio se repete em outros estados do pas. Em Campo Grande, o principal nome do partido para a prefeitura, Ricardo Ayache, dever deixar a sigla nos prximos meses por considerar que so nulas suas chances de vitria se permanecer onde est. Diante do cheiro de debandada no ar, o presidente nacional do PT, Rui Falco, e o ministro de Comunicao Social, Edinho Silva, acionaram a mquina estatal para tentar estancar a migrao. A ao da dupla j fez com que ao menos um prefeito  que, como todos, depende de convnios com o governo federal para  trabalhar  recuasse da deciso de deixar a sigla. 
     Mesmo assim, dirigentes petistas admitem que a eleio de 2016 ser a primeira em vinte anos em que o partido ver diminuir o seu nmero de prefeitos. Desde 1996, o PT vinha aumentando a presena nos municpios a cada eleio, at chegar aos 638 vencedores de 2012  entre eles Fernando Haddad, que comanda So Paulo, a joia da coroa. 
     Agora, uma amostra do que est por vir aparece em um estudo do Instituto Anlise, coordenado pelo cientista poltico Alberto Almeida. Ele comparou as taxas de reeleio de prefeitos em 76 grandes municpios brasileiros com a aprovao de seus primeiros mandatos. A concluso  que, quando os ndices de timo e bom ficam abaixo de 30%, a chance de conseguir renovar o mandato nas urnas  de apenas 16%. Quando a avaliao positiva fica acima de 50%, o patamar de reeleio sobe para 59%. VEJA analisou o caso de nove dos dez prefeitos petistas que comandam capitais ou cidades com mais de 200000 habitantes (apenas em Anpolis, em Gois, no havia dados confiveis). Em sete desses nove municpios, os ndices de timo e bom dos prefeitos petistas esto abaixo dos 30%  o que, se no significa que o preo est perdido, indica ao menos que ser durssimo. 
     A perda de popularidade de um partido depois de uma longa temporada no poder no est relacionada apenas aos erros que comete. Um estudo do cientista poltico Paul Whiteley, da Universidade de Essex, no Reino Unido, analisou a queda do ativismo dos filiados de partidos em 36 pases e concluiu que o fenmeno tende a ocorrer sempre que a sigla se "profissionaliza" e se aproxima do Estado. " medida que isso ocorre, ela d menos importncia aos voluntrios, ao mesmo tempo que espera que eles assumam mais responsabilidades. Diminui o incentivo para que recrute e retenha apoiadores, j que, em boa medida, ela acaba sustentada pela estrutura de governo." 
     Em Mogi das Cruzes, o vereador Clodoaldo do PT, como era conhecido e se identificava em sua pgina no Facebook, voltou a ser Clodoaldo Moraes. Ele diz que decidiu trocar a apresentao ao perceber que a anterior causava "constrangimento". "Nos eventos, quando os locutores anunciavam o nome dos presentes, tentavam pular o meu", conta. O PT, disse Lula, est "abaixo do volume morto". Mas, ao contrrio do Sistema Cantareira, nesse caso, no h soluo que venha do cu. 

ASCENSO E QUEDA DO PT
Eleitores que preferem o partido

Junho/2000 FHC 15%
Agosto/2004 Lula 1 18%
Novembro/2008 Lula 2 23%
Dezembro/2012 Dilma 1 27%
Junho/2015 Dilma 2 11%

CANDIDATOS NO VERMELHO 
Um estudo do cientista poltico Alberto Almeida com 76 prefeitos de grandes cidades que tentaram a reeleio mostrou que o ndice de aprovao de 30% representa uma linha demarcatria entre a vitria e a derrota. Abaixo dela, as chances de reeleio so de apenas 16%. Dos nove prefeitos petistas de capitais e cidades de grande porte que podem se reeleger, sete se encontram abaixo desse marco.

COM CHANCE
Marcus Alexandre, Rio Branco (AC) 59%
Luciano Cartaxo, Joo Pessoa (PB) 55%

QUASE SEM CHANCE
Fernando Haddad, So Paulo (SP) 20%
Gilmar machado, Uberlndia (MG) 20%
Donisete Braga, Mau (SP) 22,3%
Carlos Grana, Santo Andr (SP) 21,5%
Jorge Lapas, Osasco (SP) 16,1%
Rodrigo Neves, Niteri (RJ) 20%
Carlinhos Almeida, So Jos dos Campos (SP) 15%
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4# ECONOMIA 1.7.15

     4#1 VOOU, CAIU E AFUNDOU
     4#2 OS ACIONISTAS CONTRA A PETROBRAS
     4#3 A DEFESA DOS MINORITRIOS

4#1 VOOU, CAIU E AFUNDOU

VARIAO DO PIB
2009 -0,2%
2010 7,6%
2011 3,9%
2012 1,8%
2013 2,7%
2014 0,1%
2015 (estimativa) -1,4%
2016 (estimativa) 0,7%

O Brasil decola, na capa da revista inglesa The Economist: o pas despontava como um dos mais promissores no ps-crise mundial.
Quatro anos depois, a revista voltou a colocar o pas em sua capa, com a chamada "O Brasil estragou tudo?"

Segundo 21 analistas ouvidos por VEJA, s sendo muito pessimista para ter alguma notcia boa sobre o desempenho da economia brasileira neste ano.

      uma questo de lgica. O pessimista radical s tem boas notcias. Afinal, se algo sair menos ruim, j ser um alvio. Esse  o quadro atual da economia brasileira. Para encontrar uma boa notcia,  preciso antes estar esperando o pior. No fim do ano passado a expectativa mdia dos analistas econmicos consultados pelo Banco Central era de que o pas pudesse escapar da recesso em 2015. Passados seis meses, entretanto, esses mesmos consultores agora esto prevendo uma retrao de 1,4%. Os pessimistas estimam um tombo ainda mais profundo  e, portanto, se ao fim do ano a retrao tiver sido mesmo de 1,4%, isso ser para eles uma boa notcia. S para eles. A dinmica atual da economia brasileira est fazendo com que os otimistas se tornem pessimistas e, muitos destes, simplesmente realistas. O mau humor  contagioso. Segundo pesquisa do Datafolha, mais da metade dos brasileiros entrevistados espera uma piora na situao econmica  e 73% temem um aumento no desemprego. O ndice de confiana dos consumidores feito pela Fundao Getulio Vargas caiu, em junho, ao segundo menor nvel da srie histrica. So os sintomas da inflao elevada e da economia em recesso. A taxa de desemprego nas regies metropolitanas subiu para 6,7% em maio, a pior para o ms em cinco anos. Alm disso, houve queda real, descontada a inflao, de 5% no salrio mdio dos trabalhadores com carteira assinada ante o mesmo ms de 2014. 
     A retrao vai se aprofundar ainda mais? Existe uma previso confivel de quando a economia voltar a crescer e criar empregos? VEJA fez essas questes a 21 analistas. As respostas deles esto nas quatro pginas seguintes.

OTIMISTAS
Dilma Rousseff, presidente da Repblica
"Estamos esperando que melhore no final do ano. Eu acredito nisso." (em junho, em entrevista a J Soares)

MENOS PESSIMISTAS
Pedro Passos, presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e scio-fundador da Natura  - "Todas as variveis refletem a etapa adversa que estamos vivendo. A demanda de crdito est caindo, o consumo das famlias de bens durveis vem registrando involuo e os investimentos tm queda acentuada. H muita falta de confiana empresarial.  difcil precisar quando esse processo atingir o seu ponto mais baixo, mas penso que um prazo possvel seja entre o fim deste ano e o primeiro semestre de 2016. Seria importante deslanchar o programa de concesses e reformas. Temos capacidade para enderear esses pontos e iniciar 2016 com um quadro mais favorvel  recuperao. 
Fernando Sampaio, diretor da LCA Consultores - "O ponto mais baixo do PIB deve ser o meio do ano, pois, a partir do quarto trimestre, dois fatores devem estancar a queda, comeando a revert-la muito lentamente: o fim do processo de ajustamento de estoques excessivos por parte da indstria; e o avano dos estmulos  atividade econmica advindos do ganho de competitividade proporcionado pela desvalorizao do real. Projetamos que o PIB cresa 0,9% em 2016." 
Luiz Moan, presidente da Associao Nacional dos Fabricantes de Veculos Automotores (Anfavea) - "S devemos perceber uma melhora quando todo o processo de ajuste fiscal estiver definido. Em termos de produo industrial, teremos um desempenho muito ruim no terceiro trimestre. A economia como um todo vai demorar um pouco mais a voltar ao ritmo de crescimento. Provavelmente s haver uma recuperao efetiva a partir do segundo trimestre do ano que vem. Vrios segmentos precisaro ainda ajustar seus estoques, para reagir aos baixos nveis de consumo." 
Maurcio Molan, economista-chefe do Santander - "No  trivial o desafio de pr a economia de volta nos trilhos. Veremos quedas adicionais de consumo e investimentos ao longo de 2015. Mas as aes corretivas nas reas fiscal e monetria tm sido contundentes, o que assegura uma perspectiva mais promissora para o ano que vem. O fundo do poo para o emprego ser atingido no incio de 2016. A retomada vir quando os empresrios perceberem que o governo equilibrou seu oramento e no precisar avanar sobre o setor privado em busca de mais impostos." 
Gustavo Loyola, scio da consultoria Tendncias e ex-presidente do Banco Central -  "O PIB em 2015 deve ter queda de cerca de 1,5%, com aumento do desemprego e queda do consumo. Aps um ciclo recessivo, o emprego tarda a se recuperar. As empresas precisam estar seguras da tendncia de retomada antes de recontratar, pois existem custos no desprezveis de contratao e demisso. Observaremos um crescimento em 2016 da ordem de 1%. Para 2017 e 2018, caso haja uma gesto responsvel,  possvel ao pas voltar a crescer em torno de 2% a 2,5% ao ano." 
Clemens Nunes, professor da Escola de Economia da FGV - "A queda da atividade vai se acentuar no segundo e no terceiro trimestre de 2015, estabilizando-se no ltimo trimestre do ano. Uma recuperao leve deve acontecer a partir do segundo trimestre de 2016, fechando o ano com crescimento de 0,3%." 
Gesner Oliveira, scio da consultoria GO Associados - "A situao tende a piorar antes de melhorar. O consumo das famlias dever continuar a registrar contrao em decorrncia da piora nas condies de emprego e renda no mercado de trabalho. Os choques tarifrios pressionaram os oramentos, que j estavam constrangidos pelo elevado endividamento. A economia dever ganhar trao ao longo de 2016. Espera-se, contudo, que o desemprego continue a subir. Ao longo de 2016, as variaes nos preos tendem a arrefecer." 
Thas Marzola Zara, economista da Rosenberg Associados - "A retomada dever ocorrer apenas na segunda metade de 2016. O desemprego se manter elevado, comeando a ceder no segundo trimestre, de forma tmida. Temos um longo processo de ajuste pela frente. De qualquer maneira, o cenrio ser um pouco melhor em 2016. Em primeiro lugar, teremos a inflao recuando, com impacto sobre o poder de compra. Com algum sucesso dos leiles de concesses previstos para a segunda metade deste ano, poderemos ter aumento de investimentos em 2016, mas ainda longe de ser suficiente para repor as perdas dos anos anteriores." 

PESSIMISTAS
Gilberto Braga, professor de finanas do Ibmec  RJ - "A retrao  inevitvel em 2015, com a economia encolhendo 2%. Atingiremos o que pode ser chamado de fundo do poo agora, na virada do semestre, s que ficaremos nesse degrau com pequenas oscilaes, at o ano que vem. O desemprego deve subir at 8% em dezembro. Mesmo que se possam esperar melhorias na economia em 2016, a taxa de desemprego deve continuar pressionada, podendo crescer para 10% ou 11%." 
Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco Ita Unibanco e ex-diretor do BC - "A retrao maior do PIB deve ser no segundo trimestre de 2015. Esperamos uma retomada moderada a partir do comeo de 2016, com crescimento de 0,3% no prximo ano. A taxa de desemprego deve continuar subindo durante 2015, at atingir 7,6%, em nmeros dessazonalizados, e subir mais lentamente no ano que vem, chegando ao seu pico (cerca de 8%) no fim do ano." 
Armando Castelar, coordenador do Instituto Brasileiro de Economia da FGV - "Nossas projees mostram que a contrao mais forte se dar no segundo trimestre de 2015. Mas novas quedas, mais suaves, podem ocorrer na segunda metade do ano. A economia deve recuperar-se lentamente da para a frente, mas com pouco vigor. No h um cenrio de Virada' no horizonte, mas de uma lenta recuperao." 
Marcel Motta, diretor da Euromonitor International no Brasil - "O pessimismo do incio do ano deu espao para a perda real de renda via desemprego. Esse medo  amplificado pelo fato de o consumidor estar endividado no longo prazo com financiamentos imobilirios e, portanto, com medo de endividar-se ainda mais. O que h realmente  uma falta de perspectiva de quando a atividade econmica sair do crescimento negativo e voltar para taxas de 3% ou 4% vistas no passado." 
Alexandre Schwartsman, consultor e ex-diretor do BC - "O ponto mais baixo deve se dar no terceiro trimestre de 2015. A demanda externa, impulsionada pelo cmbio, deve reagir antes, mas, como o Brasil  uma economia fechada, as exportaes no conseguem puxar o crescimento muito para cima. A capacidade de crescimento sustentvel anda na faixa de 1,5% a 2% ao ano. A acelerao das concesses de infraestrutura pode ajudar, bem como melhoras na rea tributria, trabalhista e de abertura comercial. Concretamente, espero algo no campo das concesses. Quanto s demais reformas, parece que o governo no tem fora poltica nem vontade de se engajar no processo."
Fbio Kanczuk, professor da FEA-USP - "A economia est em seu pior momento. Os resultados do PIB do segundo e do terceiro trimestre de 2015 sero negativos, mas no quarto trimestre haver resultados positivos, embora medocres. O desemprego, no entanto, vai piorar bastante, porque, historicamente, as taxas vm atrasadas em relao ao PIB. Vamos sair desse patamar muito lentamente e s conseguiremos perceber melhoras efetivas em dois anos. At 2017, a recuperao da economia ser tmida, e essa  a principal diferena em relao as outras crises que vivemos. O ritmo da recuperao ser muito mais lento." 
Jos Lus da Costa Oreiro, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) - "Estamos no incio das dores. O ciclo de elevao da taxa de juros deve se prolongar por mais alguns meses, com a Selic podendo alcanar 15%. O ajuste fiscal vai se estender at 2017, no mnimo. Como a poltica monetria e a poltica fiscal vo continuar contracionistas por um longo perodo, no h a menor chance de a recuperao se originar da expanso da demanda interna. S poderemos sair da crise por intermdio de um aumento da demanda externa por produtos brasileiros. Isso requer um aprofundamento do processo de desvalorizao do cmbio. O Banco Central tem de permitir que a cotao do dlar suba para, pelo menos, 3,50 reais." 
Joo Augusto de Castro Neves, diretor para a Amrica latina da Eurasia Group - "Os acontecimentos da Operao Lava-Jato sinalizam que o pior da crise poltica e econmica ainda pode estar por vir. Apesar dos esforos concretos do governo para resgatar a confiana, a onda de ms notcias continua. Percebe-se que as dificuldades devero adentrar 2016 tambm. No plano macroeconmico, o ajuste dever prosseguir, mas sempre um pouco aqum do necessrio. No melhor cenrio, os prximos trs anos no sero brilhantes.
Luiz Roberto Cunha, professor de economia da PUC-RJ - "O ajuste fiscal e monetrio, depois do fracasso da 'nova matriz econmica' do primeiro mandato de Dilma, ter de ser longo, principalmente pela dificuldade na aprovao do conjunto de medidas propostas pela equipe econmica. Quando a poltica econmica recuperar a credibilidade, estaro sendo criadas as condies bsicas para que os investimentos sejam retomados." 

MAIS PESSIMISTAS
Jos Mrcio Camargo, economista da Opus Gesto de Recursos e professor da PUC-RJ - "A retrao est apenas comeando. Estimo uma queda do PIB entre 1,5% e 2,0% em 2015. Nesse cenrio, no levo plenamente em considerao os efeitos da Lava-Jato. O impacto da operao sobre a taxa de investimento e sobre o  desempenho da construo civil ser severamente negativo. Alm da construo civil, a Lava-Jato deve afetar o setor bancrio. As empreiteiras envolvidas so muito grandes e tm dvidas enormes com bancos. Na melhor das hipteses, veremos uma estagnao do PIB em 2016. O mais provvel  que ele seja levemente negativo." 
Monica Baumgarten de Bolle, pesquisadora do Peterson Institute foi International Economics e scia da Galanto Consultoria - "A batelada de indicadores negativos, somada ao aprofundamento da Lava-Jato e ao drama das famlias (desemprego, renda em declnio, custo de vida mais alto), sugere que a retrao dever se acentuar at o fim do ano. No sei quando chegaremos ao ponto mais baixo. A complexidade da crise atual, envolvendo aspectos econmicos, polticos e institucionais, no permite uma viso clara. Estamos longe do ponto de inflexo. Os problemas so profundos, difceis de ser dirimidos em prazo curto. No consigo enxergar quando o crescimento retornar de modo sustentvel." 
Srgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados - "A tendncia  ainda piorar no segundo semestre. Projetamos, no momento, retrao de 0,1% no ano que vem, mas corremos o risco de revisar para baixo novamente. O que se pode dizer  que no ser pior do que 2015, quando vamos cair entre 1,5% e 2%.Tanto o ajuste fiscal quanto o monetrio esto em andamento. O desemprego deve iniciar 2016 em alta. Teremos muitos anos de taxa de desemprego elevada. No consigo antecipar uma virada de fato, com acelerao mais forte da atividade econmica." 
Marcos Casarin, analista da consultoria britnica Oxford Economics - "O que vamos ver  o efeito da piora no mercado de trabalho sobre as decises de consumo das famlias. Sendo assim, se o desemprego continuar subindo e os salrios comearem a crescer menos do que a inflao, poderemos ver um horizonte de retrao mais longo que o de costume, o que arrastaria o PIB para baixo. Vejo um cenrio de improviso pela frente. O nico fator que poderia provocar uma virada seria uma crise causada pela perda do grau de investimento. Somente nesse caso vejo um ponto de inflexo. Fora isso, meu cenrio-base  de uma morte lenta para a economia." 

COM REPORTAGEM DE MARCELO SAKATE, BIANCA ALVARENGAE ISABELLA DE LUCA


4#2 OS ACIONISTAS CONTRA A PETROBRAS
A Justia dos Estados Unidos comea a julgar se os investidores internacionais e tambm os brasileiros tero o direito de ser ressarcidos pelas perdas com a estatal.
MARCELO SAKATE

     H pouco menos de cinco anos, a Petrobras realizou a maior captao mundial de recursos da histria (at aquele momento) por meio da venda de aes: levantou 70 bilhes de dlares, o equivalente a 120 bilhes de reais na ocasio, para assegurar os recursos para a explorao do pr-sal. A promessa de riqueza em abundncia atraiu o interesse de investidores em todo o mundo, que aplicaram na estatal 24 bilhes de reais. No Brasil, pequenos investidores contriburam com 3,4 bilhes de reais. Na poca, as aes da Petrobras passaram a ser negociadas a 28 reais. Desde ento, a empresa entrou em um inferno astral causado no pelas estrelas do firmamento, mas por aquela do partido no comando do governo. A estatal foi sangrada pela interferncia poltica, que a obrigou a vender combustveis de forma subsidiada, pelo esquema de corrupo investigado pela Operao Lava-Jato e por decises equivocadas, como a aposta em refinarias que no do retorno. Tudo isso dilapidou o patrimnio daquela que era a maior empresa brasileira e a quarta maior do mundo. S com os subsdios  gasolina e ao leo diesel, a perda foi de 80 bilhes de reais. O tamanho do rombo com a corrupo e os projetos errados foi revelado h dois meses, quando a Petrobras assumiu uma baixa de 50,8 bilhes de reais no patrimnio. Em janeiro, no auge das incertezas sobre o futuro da empresa, a cotao caiu para 8 reais. A derrocada levou junto a poupana de milhares de investidores no Brasil e no exterior. 
     Esses investidores decidiram entrar com processos na Justia para cobrar os seus direitos, na forma de indenizao pelos prejuzos com a queda das aes. A alegao  que a empresa divulgou informaes incorretas sobre a sua sade financeira e o patrimnio, o que os induziu a erro na avaliao sobre se a aplicao valia a pena ou no. O principal processo corre na corte federal da Justia americana em Nova York. Trata-se de uma ao coletiva liderada por um fundo de penso de professores ingleses, com sede em Liverpool, mas que defende o interesse de outras empresas e pessoas fsicas. Na ltima quinta-feira foi realizada a primeira audincia do processo, que est nas mos do juiz Jed Rakoff, famoso pelo rigor com que julgou casos de fraude na derrocada ps-crise financeira de 2008. No h ainda estimativa oficial sobre o valor das indenizaes e multas a que a Petrobras estar sujeita, mas especialistas indicam que ela pode ser obrigada a desembolsar um montante em torno de 1 bilho de dlares. Podero ser beneficiados todos os acionistas minoritrios, incluindo os que no aderiram  ao coletiva mas compraram aes da Petrobras nos Estados Unidos entre janeiro de 2010 e maro passado. H um pleito para que investidores brasileiros com aes da Petrobras na BM&FBovespa e que adicionalmente compraram papis no mercado americano tenham direito a ser indenizados, por ordem da corte americana, tambm pelas infraes cometidas em relao  legislao brasileira. 
     Os advogados da Petrobras alegam que a estatal no tinha conhecimento das fraudes. A empresa diz ter sido vtima de um cartel criminoso formado pelas maiores construtoras e empresas de engenharia do pas, alm de polticos corruptos; negou ter pago propinas e disse que no sabia que havia sobrepreo nos contratos. Alm disso, tenta trazer o julgamento do caso para o Brasil. A expectativa dos investidores nesse processo  fundamentada pelo histrico de proteo da lei americana a acionistas minoritrios. Duas empresas brasileiras privadas servem como exemplo recente. A Aracruz e a Sadia foram processadas por investidores por causa dos prejuzos com contratos de derivativos cambiais na crise financeira. Foram acusadas de no fornecer as informaes devidas e fecharam acordos para encerrar as aes na Justia americana: pagaram, respectivamente, 37,5 milhes de dlares e 27,5 milhes de dlares. No caso da Petrobras, a opo de um acordo para encerrar o litgio ter carter poltico: a deciso caber ao governo federal, que  o acionista controlador. O processo coletivo em Nova York contrasta com a realidade do mercado brasileiro, em que correm contra a estatal apenas aes isoladas de pequenos investidores, por causa de restries legais. 
     Enquanto isso, a nova diretoria busca reerguer a Petrobras. A principal vulnerabilidade est na sua dvida lquida de 332 bilhes de reais. Investidores e analistas aguardam a atualizao do plano de negcios.  esperada uma reduo de 30% a 40% nos investimentos previstos entre 2015 e 2019 na comparao com os 220,6 bilhes de dlares do plano anterior. Especialistas questionam se a Petrobras ter vigor financeiro para dar o andamento necessrio  explorao do pr-sal. Um projeto de lei do senador Jos Serra prope que a estatal no seja mais obrigada em lei a participar de todas as atividades de explorao e produo do pr-sal nem a deter a participao mnima de 30% nos consrcios que vencerem os prximos leiles. Executivos da prpria empresa apoiam a ideia, apesar da resistncia de Dilma Rousseff. A proposta tem o mrito de instilar realismo nos planos da empresa, uma vez que ela no tem capacidade administrativa nem financeira para assumir todos os projetos. 

NOVE MITOS QUE TURVAM O DEBATE
1- O pr-sal micou - O pr-sal brasileiro consegue ser competitivo, apesar de ser extrado de reservas que esto a quase 7 quilmetros de profundidade. Hoje, o custo mdio da produo do barril  de 9 dlares - a mdia internacional  de 14 dlares. Quando se soma o custo de instalao dos poos e plataformas, diferidos na vida til do campo, o preo finai do barril fica em 15 dlares. 

2- O pr-sal no tem mais atrativos em um mundo que caminha para a energia limpa - Nenhuma das desejadas e esperadas formas de energia limpa em pesquisa ou j em uso tem condies de atenuar a dependncia que o mundo tem do petrleo. Esse status quo deve permanecer pelo horizonte visvel, ou seja, ainda no ser esta nem a prxima gerao a desfrutar energia limpa em quantidade e preo compatveis com o atendimento das necessidades de mais de 7 bilhes de habitantes da Terra. 

3- As empresas petrolferas internacionais esnobam o potencial econmico do pr-sal - O reconhecimento do pr-sal como uma valiosa fronteira energtica tem influenciado movimentaes no mercado de leo e gs com gigantes do setor. A mais recente foi quando a anglo-holandesa Shell, parceira da Petrobras no campo de Libra, comprou a BG, que tambm opera no pr-sal. 

4- A dvida bruta de 400 bilhes de reais  impagvel - A companhia tem um endividamento elevado, mas grande parte dele  de longo prazo - segundo o balano do primeiro trimestre deste ano, quase 300 bilhes da dvida s vencem a partir de 2018, sendo que 165 bilhes sero cobrados apenas a partir de 2020. Para manter seus pagamentos em dia, a Petrobras tem, at l, de ter recuperado a sade financeira. Para isso,  preciso pr a casa em ordem e no desperdiar dinheiro em projetos sem perspectivas de lucro. 

5- A empresa foi abalada em seus alicerces pela corrupo - O maior dano causado pela Operao Lava-Jato  Petrobras foi sem dvida em sua reputao, o que repercutiu na desvalorizao aguda das suas aes e na paralisao de projetos. Essa perda foi maior que a dos desvios em si, que, segundo a empresa, ficaram na casa de 6,2 bilhes em um perodo de dez anos - o nmero impressiona, mas o processo no minou a capacidade da companhia, que dever ter uma gerao de caixa de 80 bilhes de reais em 2015. 

6-  irrecupervel o prejuzo trazido pelos subsdios ao diesel e  gasolina - A prtica de conter esses reajustes para controlar artificialmente a inflao foi a mais danosa para o caixa da Petrobras. Os reajustes recentes, acompanhados da desvalorizao internacional dos combustveis, melhoraram a lucratividade da empresa sobre os importados. Alguns analistas, porm, avaliam que a margem da empresa com as vendas est se aproximando do zero e alertam para a necessidade de um novo reajuste. 

7- A investigao que a Petrobras sofre nos Estados Unidos vai destruir a empresa - Mesmo que a estratgia jurdica da Petrobras falhe e a ao prospere, casos como este costumam terminar em acordos em vez de longas e onerosas disputas nos tribunais americanos. Ao chegar a este ponto, os valores pedidos so reduzidos de maneira marcante. A indenizao mais polpuda por fraude paga at hoje, a do caso Enron, ficou em 7,2 bilhes de dlares. Um eventual acordo da Petrobras no deve chegar nem prximo desse valor - mas, mesmo que chegue, no tem volume para abalar a empresa. 

8- A Refinaria Abreu e Lima, orada em 2 bilhes (de dlares), j custou 20 bilhes e no funciona - O projeto da refinaria que foi aprovado e construdo tinha o custo de 13 bilhes de dlares - o valor de 2 bilhes se refere a um pr-projeto que se mostrou tecnicamente invivel. O trem 1 da refinaria, com capacidade de processar at 115.000 barris por dia, est em operao desde dezembro de 2014. 

9- As demais obras tisnadas pela corrupo vo continuar paradas - At que as novas prioridades sejam definidas por um plano de negcios, esse ltimo item no chega a ser um mito. 


4#3 A DEFESA DOS MINORITRIOS
Se o desfecho dos julgamentos do Grupo EBX, de Eike Batista, e da Petrobras consolidar a viso corrente de impunidade das fraudes que causaram perdas a milhares de investidores, o mercado de capitais brasileiro ser o principal prejudicado. A avaliao  da advogada Erica Gorga, pesquisadora na Escola de Direito de Yale e professora da FGV-SP, que atua como perita no processo coletivo nos EUA em que investidores buscam indenizao pelo prejuzo com a Petrobras. Em entrevista a VEJA, Eria defende a ideia de que as leis brasileiras sejam reformuladas para proteger os acionistas minoritrios. 
M.S.

GESTO OMISSA
A estatal  processada por fraude a investidores com base nas leis americana e brasileira. S entre 2012 e 2014, a Petrobras levantou 26,5 bilhes de dlares de investidores internacionais. Por lei, a empresa tem obrigao de fornecer demonstraes contbeis completas e verdicas de sua real condio financeira.  processada por emitir declaraes inverdicas e dar informaes falsas, isto , mentir, omitir e enganar investidores e induzi-los a erro de avaliao sobre o investimento. 

REPERCUSSES 
Os investidores brasileiros que compraram ttulos da companhia nos Estados Unidos tambm tm direito a ser ressarcidos dos prejuzos sofridos.  a alegao que defendo na ao na corte federal em Nova York. O processo  coletivo, ou seja, beneficia a todos os investidores na mesma situao. Se o juiz decidir que a ao tem de prosseguir, haver grande impacto: mostrar que as normas brasileiras de proteo a investidoes no cumpridas no Brasil sero aplicadas nos Estados Unidos. 

EIKE E PETROBRAS 
At hoje, a lio deixada pelos casos do Grupo EBX, de Eike Batista, e da Petrobras  que cometer ilcitos contra investidores compensa  e muito. A Comisso de Valores Mobilirios (CVM) aplicou multas no total de 1,4 milho de reais a Eike, valor irrisrio quando considerados os prejuzos causados a investidores  que ainda no foram indenizados. Nesse caso h uma ao civil pblica em estgio inicial. Se o resultado final consolidar a viso corrente de impunidade de fraudes a investidores e crimes financeiros, o mercado de capitais brasileiro como um todo tender a minguar ainda mais. As empresas sofrero descontos nos preos de seus papis devido  desconfiana do mercado internacional. 

AMARRAS DA LEI 
Para que houvesse um processo coletivo para a indenizao dos investidores no Brasil no caso da Petrobras, o Ministrio Pblico teria de ingressar com uma ao civil pblica. Mas no o fez, porque tem focado somente a esfera criminal. No Brasil, existem apenas aes individuais esparsas de pequenos investidores. Com as leis atuais, minoritrios quase nunca so indenizados. 

MAIOR RIGOR 
 preciso reformar as leis. Deve-se permitir que acionistas com menor propriedade acionria ingressem com aes de responsabilidade civil contra administradores em benefcio da companhia, como ocorre em pases da Europa, e reformar a lei da ao civil pblica, para que outras partes privadas ingressem com processos coletivos, como ocorre nos EUA. Precisamos reformar a lei de mercado de capitais para estabelecer multas mais altas e parmetros mais claros para a responsabilizao de bancos de investimento, auditores e advogados  todos os que tm obrigao legal de monitorar as empresas. 

INVERSO DE PAPIS 
Propagou-se o mito de que a Petrobras  vtima. Uma companhia que captou bilhes de dlares e de reais dos investidores no pode dissipar tais recursos sem assumir sua responsabilidade. A lei impe obrigaes s companhias que captam poupana popular. A vitimizao diminui a possibilidade de responsabilizar os administradores perpetradores de ilcitos. Alm disso, afugenta investidores, que so as vtimas reais, pois uma companhia no  gerida para remunerar a si mesma. Ningum quer investir em companhias que no so responsabilizadas pelo uso do dinheiro dos seus acionistas.  inconcebvel que pessoas honestas trabalhem a vida inteira para ter a aposentadoria dissipada em corrupo. 

EXEMPLO AMERICANO 
A Enron foi processada por um grande esquema de fraude e ressarciu mais de 7 bilhes de dlares a investidores; seu ex-presidente foi condenado a 24 anos de priso. O argumento de que a companhia que capta dinheiro do pblico e comete fraudes  "vtima coitadinha", no responsvel por suas aes, no prospera nos Estados Unidos. Os americanos sabem que, se no houver proteo dos direitos dos investidores, a economia no crescer, porque no haver investimentos. 

DIREITO AMEAADO 
O governo brasileiro rapidamente aprovou a Lei de Arbitragem, que  utilizada como argumento para afastar a jurisdio americana e levar o processo da Petrobras para a cmara de arbitragem sigilosa da BM&FBovespa. O mesmo governo que no quer privatizar a empresa quer impor a privatizao das disputas da companhia com investidores e barrar o acesso ao Judicirio, o que  inconstitucional. A escolha entre Judicirio e arbitragem privada para resolver disputas deve ser do investidor. A arbitragem  muito mais cara e no  vivel para a maioria dos investidores minoritrios. Alm disso, no Judicirio o processo  pblico, enquanto na arbitragem  secreto. 
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5# INTERNACIONAL 1.7.15

     5#1 SUPERPOVOADA
     5#2 TERRORISMO EM EXPANSO

5#1 SUPERPOVOADA
Nunca houve tantos aspirantes republicanos  Presidncia. Bom para Hillary Clinton, que ter ateno quase total entre os democratas.
NATHALIA WATKINS

     Os americanos ainda tm um ano e meio at a escolha do prximo presidente e pelo menos sete meses at o incio das primrias dos partidos Democrata e Republicano, mas o pleito j pode ser considerado histrico por dois motivos. O primeiro  o nmero de candidatos republicanos. Nunca houve tantos interessados em chegar  Casa Branca. Na semana passada, o governador de Louisiana, Bobby Jindal, fez o 13 anncio de pr-candidatura.  Estima-se que o nmero de aspirantes da legenda chegue a dezoito at setembro. A segunda particularidade  a ausncia de um ou mais favoritos claros numa primria republicana, o que no acontecia desde 1970. O ex-governador da Flrida Jeb Bush tem vantagem de apenas 1 ponto porcentual em relao ao segundo colocado, o senador Marco Rubio, seguido de perto por outros cinco. "Qualquer pr-candidato com capacidade de arrecadao pode manter sua candidatura e usar a exposio para, no mnimo, alavancar a prpria carreira poltica no futuro", diz o cientista poltico David Canon, da Universidade de Wisconsin. 
     No sistema eleitoral dos Estados Unidos, os simpatizantes das legendas elegem seus candidatos preferidos em cada um dos cinquenta estados, por meio de caucus (assembleias de eleitores) ou de votaes convencionais. Sero centenas de debates na TV e aparies pblicas a partir de agosto. Terminado o processo em todo o pas, cada partido realiza uma conferncia e nomeia seu candidato  Presidncia. A acirrada corrida republicana favorece a ex-secretria de Estado Hillary Clinton, que lidera a disputa democrata com 75% da preferncia dos afiliados (contra apenas 15% do segundo colocado, o senador Bernie Sanders). Em relao aos possveis rivais republicanos, ela empata com Jeb Bush em inteno de voto e derrota todos os outros. 
     Se os eleitores republicanos forem pragmticos e escolherem o pr-candidato com maiores chances de enfrentar Hillary,  provvel que se tenha, em 2016, uma disputa entre as duas mais fortes dinastias polticas da atualidade nos Estados Unidos. O marido de Hillary, Bill, foi presidente entre 1993 e 2001. "Os democratas se sentem um pouco frustrados com o governo do atual presidente, Barack Obama, e tm boas lembranas da administrao de Bill Clinton", diz o cientista poltico Christopher Arterton, de Washington. O pai de Jeb, George H. Bush, governou o pas entre 1989 e 1993, e o irmo, George W. Bush, entre 2001 e 2009, terminando o mandato com mseros 34% de aprovao popular, em meio a uma crise econmica e duas guerras sem fim  vista. Para distanciar um pouco o ex-governador da Flrida desse legado, o sobrenome Bush tem sido omitido de seu material de campanha. 
     Na lgica particular das primrias, porm, no basta demonstrar capacidade de vencer o candidato do outro partido.  preciso tambm agradar  ampla gama ideolgica dos afiliados e enfrentar as crticas fratricidas dos pr-candidatos da prpria legenda. No ser uma tarefa fcil para Jeb Bush em um cenrio com figuras excntricas como o bilionrio Donald Trump, cujo nico intuito ao lanar sua pr-candidatura aparentemente  alavancar a audincia do seu reality show empresarial (a verso americana do programa O Aprendiz). 


5#2 TERRORISMO EM EXPANSO
Trs ataques simultneos tm as marcas do Estado Islmico. 
     
     Combatentes de todos os lugares, corram e faam do Ramada um ms de desastres para os infiis", disse o porta-voz do grupo Estado Islmico, Abu Mohammed al-Adnani, em uma mensagem de udio divulgada na semana passada. Foi o que aconteceu no dia 26, a segunda sexta-feira do ms em que os muulmanos jejuam e o principal dia da semana de oraes. Na Frana, um veculo com dois passageiros invadiu uma fbrica americana de gs prxima a Lyon. Os terroristas tentaram explodir o local, deixando dois feridos. O estrago foi menor do que o esperado pelos radicais, mas a mensagem de morte foi transmitida com clareza. No porto da fbrica, os terroristas espetaram a cabea de uma pessoa enrolada em um pano com inscries em rabe. O corpo decapitado foi deixado nos arredores. A vtima, de 50 anos, foi identificada como o gerente de uma empresa de transportes para a qual trabalhava um dos suspeitos do atentado, Yassin Salhi, de 35 anos. Salhi j esteve sob vigilncia da polcia entre 2006 e 2008 por conexes com salafistas, mas as investigaes foram suspensas por falta de provas. Aps os atentados contra a revista satrica Charlie Hebdo e a  um supermercado judaico em janeiro, que deixaram dezessete mortos em Paris, um plano de segurana nacional colocou mais de 10.000 soldados em locais estratgicos, como sinagogas e mesquitas. Desde ento, as autoridades francesas impediram cinco atentados. 
     Na Tunsia, dois homens armados com fuzis Kalashnikov abriram fogo contra os hspedes de um resort na cidade litornea de Sousse. Eles se passaram por turistas e chegaram em um barco, vestidos de short. Na praia, abriram fogo contra os banhistas e mataram 37 pessoas, entre elas ingleses, alemes e belgas, segundo a ltima contagem at o incio da noite em Sousse. Esse  o segundo ataque em lugares voltados para o turismo, atividade responsvel por 15% do PIB do pas. Em maro, em um atentado no Museu Bardo, na capital, Tnis, militantes do Estado Islmico deixaram 22 mortos, em sua maioria turistas. Bero da Primavera rabe, os protestos que derrubaram ditadores no norte da frica e no Oriente Mdio a partir de 2011, a Tunsia foi o nico pas que avanou rumo  democracia. No Kuwait, um suicida matou ao menos 25 pessoas em uma mesquita xiita, o primeiro atentado cometido pelo Estado Islmico em um pas do Golfo. 
     Os ataques na Frana, na Tunsia e no Kuwait, quer ordenados diretamente, quer simplesmente inspirados na ideologia do Estado Islmico, demonstram o esforo do grupo em ampliar sua rea de influncia e sua capacidade de espalhar o terror contra cidados ocidentais. 
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6# GERAL 1.7.15

     6#1 GENTE
     6#2 VIDA DIGITAL  A APPLE DA CHINA
     6#3 SADE  ABAIXO O REGIME!
     6#4 GUSTAVO IOSCHPE  POR QUE VOC NO FAZ NADA?
     6#5 SOCIEDADE  NOBREZA SEM MONARQUIA

6#1 GENTE
JULIANA LINHARES. Com Karina Morais e Thas Botelho.

REMANDO E CANTANDO 
Este  um dos nicos vestidos que ainda caem bem na soprano brasileira, radicada em Nova York, ANGELICA DE LA RIVA. Desde que foi convidada pelo tcnico da seleo brasileira de remo para tentar uma vaga na Olimpada do Rio, Angelica, que estava havia catorze anos longe do esporte, voltou a treinar, e viu a largura de seus ombros aumentar em 15 centmetros. "Como no posso cantar com roupa apertada, subo ao palco com os vestidos abertos nas costas", diverte-se ela, que  irm da cantora Marina de la Riva. Campe brasileira de remo na adolescncia, Angelica diz que suas duas ocupaes se completam: "O corpo gordo dos cantores de pera d sustentao para o diafragma, o que os faz cantar melhor. Como sou magra, fico em desvantagem; mas o remo me d essa fora e compensa o problema". 

INCLUA-ME FORA DESSA
O plano era ousado: juntar em um filme cinco atores que interpretaram James Bond: Roger Moore, George Lazenby, Timothy Dalton, Pierce Brosnan e SEAN CONNERY, 84. As conversas entre eles e os produtores at que iam bem, mas empacaram porque Connery disse no. "Sean no quer mais ser associado a Bond. Eu toparia, mas ia precisar de dez dubles para as cenas de ao", diz Moore. Sean Connery, que estreou como o 007 em 1962 e fez sete filmes da srie (em todos, j calvo, atuou de peruca), vive longe dos holofotes e disse h alguns anos que no quer mais trabalhar porque "agora, idiotas fazem filmes em Hollywood". Meses atrs, ao conhecer um aposentado que h vinte anos faz trabalhos como seu ssia, disse a ele: "Mas voc  muito feio!" 

MEU REINO POR UM CAVALO
"Ela usa um perfume leve, fala firme e pausadamente e pontua os comentrios com um how wonderful!" Essa  a rainha ELIZABETH que a atriz JULIANA BARONI conheceu ao acompanhar o marido, EDUARDO MOREIRA, em um evento no castelo de Windsor. "Ao encontr-la, fiz a reverncia e esperei que ela me estendesse a mo para s depois dar a minha, como manda o protocolo", diz Juliana, que  protagonista da prxima novela do SBT. Moreira  especialista em doma de cavalos sem o uso de castigo fsico. Foi a Windsor por causa de um coronel da polcia paulista que usa tcnicas de um livro do adestrador no treinamento de policiais e, por isso, recebeu uma condecorao da rainha. Louca por cavalos, aos 89 anos, ela ainda monta. 

TEU PRESENTE TE CONDENA 
Dona de uma beleza que resiste a quase trinta anos de passarela, a inglesa NAOMI CAMPBELL, 45,  conhecida tambm pelo temperamento vulcnico: foi condenada por agresso, banida de uma companhia area por brigar com os funcionrios, acusada de violncia em dez casos na Justia, entre outras mumunhas. Para tentar suavizar esse passado, Naomi pagou uma empresa de relaes pblicas para que apagasse da Wikipedia, a enciclopdia virtual, algumas dessas passagens, bem como o namoro com Mike Tyson e uma frustrada tentativa de virar cantora. Evidentemente, a manobra foi percebida, denunciada, e os dados, recolocados no site. "Naomi no teme nada. Por isso, gosto dela", disse Tyson  poca do namoro. Algo mudou... 

UM DIVRCIO SEM PORCA MISRIA 
Um milho e quatrocentos mil euros (ou 5 milhes de reais)  a quantia que a ex-mulher de SILVIO BERLUSCONI, 78, vai receber de penso, todos os meses, do ex-primeiro-ministro italiano, segundo decidiu um tribunal de Monza, na semana passada. VERONICA LARIO, que foi casada com o Cavaliere por dezenove anos, h seis pediu o divrcio, alegando no "tolerar que o marido sasse com menores de idade". Com o processo s agora finalizado e o equivalente em euros a 25 bilhes de reais que tem no banco, Berlusconi, banido da poltica at 2019 por causa de uma condenao por fraude fiscal, est com o caminho aberto para se casar com sua namorada de 29 anos, Francesca Pascale. A imprensa italiana diz que ela at comprou o vestido. J Veronica pode sonhar com muitas outras plsticas e safiras. 


6#2 VIDA DIGITAL  A APPLE DA CHINA
A Xiaomi, cujas operaes so chefiadas pelo brasileiro Hugo Barra, chega ao Brasil com um modelo inovador de comrcio de gadgets.
FILIPE VILICIC

     Tendo nascido na China, soava mesmo improvvel que a Xiaomi, uma startup de apenas cinco anos de existncia, ficasse restrita a suas ambies iniciais, de somente incomodar gigantes como a Apple e a Samsung. Ela  hoje conhecida como a "Apple chinesa", alcunha que soa um tanto quanto bvia mas representa extraordinrio atalho para entender o alcance da marca. No mercado chins, no qual se espera o comrcio de 500 milhes de smartphones neste ano (trs vezes mais que nos Estados Unidos), a marca j destronou os concorrentes americano e sul-coreano da liderana. Em 2014, tornou-se a terceira maior fabricante de smartphones do mundo (61 milhes de aparelhos vendidos), indcio de vitria no ambicioso projeto de conquistar o mundo. Nesta semana, a Xiaomi chega ao Brasil com pompa.  
     O que a empresa chinesa oferece de diferente, a ponto de crescer to rapidamente? Os gadgets combinam design elegante  por vezes, lembra a qualidade da Apple  com tecnologia de ponta, a exemplo da capacidade de processamento, similar  dos iPhones. O preo  consideravelmente mais baixo; na maioria dos pases onde a companhia j se instalou, ele chega  metade do da concorrncia. Em vez de ser feitas em lojas fsicas, as vendas so realizadas on-line, exclusivamente pelo site da marca. A Xiaomi ainda aposta no interesse dos compradores, a quem chama de fs, e no de clientes. Para tanto, alimenta fruns de discusso, nos quais os amantes da grife sugerem mudanas, muitas vezes incorporadas aos produtos. Acreditava-se que esse modelo atrairia um pblico de nicho e que as vendas nunca ameaariam os grandes do setor. Mas funcionou. 
     Os tubares do Vale do Silcio esperam ansiosos pela chegada da fabricante aos Estados Unidos, onde j comercializa perifricos (como fones de ouvido), mas ainda no desembarcou com seus tanques, os smartphones. Justamente pela ousadia nos negcios, a consultoria americana The Boston Consulting Group elegeu a startup como a mais inovadora do planeta. O desembarque no Brasil, cujos detalhes VEJA conseguiu com exclusividade,  um terreno de testes para o que pode vir a ocorrer ao norte. 
     Diz o mineiro Hugo Barra, vice-presidente da Xiaomi, responsvel pelas operaes fora da China: "H dois anos, ningum nos conhecia. Hoje, temos fama global. Estamos no caminho para nos tornar fortes como a Apple". A principal manobra para conquistar reconhecimento  a internacionalizao. Foi para isso que chamaram Barra, que trocou o posto de vice-presidente do Google, onde chefiava a diviso do Android (o sistema operacional de smartphones e tablets), pela China. A fabricante comeou apostando em vizinhos na sia, mas agora parte para o competitivo terreno ocidental. Hoje, est em dez pases fora a China, incluindo a venda de acessrios nos Estados Unidos. O Brasil ser o 11. 
     A fabricao brasileira ficar por conta de uma fbrica taiwanesa, a Foxconn, instalada no interior de So Paulo, que tambm monta produtos da Apple. As vendas (sempre via internet, ressalve-se) comearo sem parcerias com as operadoras de telefonia  o cliente colocar o chip de preferncia. Nesta tera-feira, 30, a Xiaomi revela a leva inicial de produtos no Brasil. Pode-se esperar (ao menos para breve) por smartphones, como o Mi 4i e o Mi Note, este amplamente elogiado. Alm disso, Barra destaca que acessrios sero vendidos. "Temos um mote segundo o qual no  preciso gastar muito para ter um aparelho de alta performance", diz Barra. Mas o sucesso depender de vencer um estigma: a m fama de produtos chineses no Ocidente. "A qualidade dos nossos aparelhos vai sobressair", garante o brasileiro. A resposta vir dos clientes. Trocaro mesmo iPhones por um smartphone chins? 

AS APOSTAS DA MARCA 
FONES DE OUVIDO - Perifricos como headphones, que custam a partir de 20 dlares na China, esto entre os produtos mais populares da empresa.
SMARTPHONES - A fabricante  conhecida pelos celulares de alta performance (equivalente  de um iPhone), mas vendidos por quase metade do preo dos concorrentes, a exemplo do Mi 4i.
PULSEIRAS - Os modelos computadorizados, que focam o uso de apps de exerccios fsicos, fazem tremendo sucesso na sia, com mais de 1 milho de unidades vendidas por ms.


6#3 SADE  ABAIXO O REGIME!
Estudo mostra que o nmero de obesos j supera o de pessoas com sobrepeso nos Estados Unidos. O resultado revela a incapacidade de frear uma curva preocupante.
CAROLINA MELO

     O dia comeara diferente na pequena escola pblica de Creston, no centro do estado americano de Washington. s 7h30, pouco antes do incio das aulas, ouviram-se gritos de revolta dos alunos do ensino mdio. O motivo: a mquina de venda automtica de refrigerantes, prxima s salas de aula, estava desligada. Os adolescentes tentavam, em vo, inserir notas de dlares no equipamento para comprar garrafas de 350 mililitros da bebida. A explicao, ento, foi dada pela inspetora: a partir daquele momento, a venda de refrigerantes s seria permitida no horrio do almoo. Era uma iniciativa da direo para frear o consumo de alimentos calricos e pouco nutritivos entre seus alunos  gordos, em sua maioria. No dia seguinte, os nimos se acalmaram. Os jovens que tinham se rebelado com a distribuidora desligada levaram suas prprias garrafas de casa. 
     O incidente de Creston  um retrato adequado, e muito comum, da atual realidade dos Estados Unidos quando se trata de levar comida  boca. O pas  campeo mundial em nmero de gordos. Um recente levantamento sobre o peso dos americanos, conduzido pela Escola de Medicina da Universidade de Washington, em St. Louis, confirmou a tendncia desastrosa  os casos de obesidade em adultos (67,6 milhes) superam os de sobrepeso (65,2 milhes). Desde 2005, j se desenhava essa curva preocupante, agora sacramentada. Ela revela a atvica incapacidade de mudar um quadro aflitivo de sade pblica. 
     E, no entanto, bilhes de dlares so investidos todos os anos em programas de preveno e conteno da obesidade. Em 2010, um projeto da primeira-dama Michelle Obama com o objetivo de implementar uma dieta saudvel nas escolas (o Lets Move!  "vamos nos mexer") custou 4,5 bilhes de dlares. A ao prev a substituio de pizzas e hambrgueres nas cantinas por alternativas mais saudveis, como saladas e frutas. As intervenes do governo so sempre rigorosas e cuidadosas. Entre as mais recentes est a coordenada pela agncia americana reguladora de alimentos e medicamentos, a FDA. A instituio props mudar os rtulos dos produtos de modo a tornar mais precisas as informaes nutricionais, como a quantidade de acar extra que h na receita. Os resultados so frgeis, e tem-se a impresso de dinheiro do contribuinte jogado fora. Foi esse o efeito ruidoso da pesquisa divulgada na semana passada. O sobrepeso  resultado de uma intrincada combinao de fatores comportamentais, ambientais e psicolgicos. 
     Afora os cerca de 10% de casos associados exclusivamente  hereditariedade, a culpa dos quilos extras no  dos genes, tampouco de um metabolismo lento. Estamos cada vez mais gordos porque comemos mais do que costumvamos comer,  verdade. Uma mulher adulta americana hoje consome cerca de 400 calorias a mais do que na dcada de 70, por exemplo. E por que comemos mais? Nasce aqui a complexidade da questo. Nas ltimas dcadas, as medidas da indstria americana para incentivar o consumo de alimentos hipercalricos tornaram-se extraordinrias. As pores aumentaram. As mquinas automticas de alimentos disseminaram-se e ampliaram a oferta de guloseimas (veja o quadro). Mas por que cedemos s tentaes? Os mecanismos da obesidade so comparados ao vcio, por envolverem o sistema cerebral de recompensa. "Em obesos, o metabolismo cerebral  semelhante ao dos viciados em drogas", diz o psiclogo Raphael Cangelli, coordenador do programa de estudos de transtornos alimentares do Instituto de Pesquisa da Universidade de So Paulo. No crebro dos gordos pode haver uma deficincia na atividade da dopamina, um neurotransmissor associado ao prazer e ao bem-estar. "Para se sentirem satisfeitos, portanto, eles precisam comer mais e mais", diz o endocrinologista Antonio Carlos do Nascimento. Em especial, acar, o grande vilo da sade, capaz de muito rapidamente deflagrar o aumento da dopamina. Os americanos, ainda por cima, consomem em larga escala um tipo de acar mais nocivo que o extrado da cana  o xarope de milho de alta frutose (corn syrup). Barato, com poder edulcorante e de absoro veloz pelo organismo, ele est presente em quase todos os alimentos processados. 
     O excesso de peso  um dos principais fatores de risco para doenas graves. A obesidade aumenta em trs vezes o risco de diabetes do tipo 2. Em um mundo onde no existissem pessoas acima do peso, o ndice de infartos e de derrames seria 20% menor. O de hipertenso, 30%. Diz o endocrinologista Walmir Coutinho, diretor de ensino e pesquisa do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro: "Estudos mostram que, para cada dlar gasto no combate s doenas relacionadas  m alimentao, 500 dlares so investidos pela indstria de alimentos para promover dietas supercalricas". 
     O grande desafio no combate  obesidade  evitar a doena na infncia e na adolescncia. Depois, torna-se extremamente difcil emagrecer. O nmero de clulas de gordura  definido at os 20 anos de idade. A partir de ento, nada  capaz de diminuir essa quantidade  nem a mais rigorosa das dietas. Quando uma pessoa emagrece, as clulas adiposas apenas perdem volume, mas continuam l, vidas para recuperar a dimenso anterior. A quantidade de clulas de gordura acumulada nos primeiros vinte anos de vida  determinada sobretudo por hbitos alimentares. A batalha contra o peso  inglria. 
     
NO  IGUAL
Sobrepeso ou obesidade?
A classificao tem como base o clculo do ndice de massa corprea (IMC)

Os resultados
NORMAL: IMC = De 18,5 a 24,9. Risco de desenvolver doenas cardiovasculares 2,5%
SOBREPESO:  IMC = De 25 a 29,9. Risco de desenvolver doenas cardiovasculares 3,5%
OBESO: IMC = 30 ou mais. Risco de desenvolver doenas cardiovasculares 8,2%

Como  calculado o IMC
IMC = Peso (em quilo) dividido por ALTURA (em metro) elevada ao quadrado

Fontes: Walmir Coutinho, endocrinologista e diretor de ensino e pesquisa do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia do Rio de Janeiro, e Antonio Carlos do Nascimento, endocrinologista de So Paulo.

MAIS GORDOS
ESTADOS UNIDOS
Dcada de 90
Sobrepeso  32,6%
Obeso  23,2%

Agora
Sobrepeso  33,3%
Obeso  35,3%

BRASIL
Dcada de 90
Sobrepeso  35,6%
Obeso  9,3%

Agora
Sobrepeso  33,3%
Obeso  17,5%

A GUERRA PELOS QUILOS
As iniciativas do governo americano para tentar conter a epidemia do sobrepeso...
* Desde a dcada de 90, algumas escolas pblicas restringem ao horrio do almoo a venda de refrigerantes, doces e salgadinhos das mquinas automticas
* Michelle Obama criou em 2010 o programa Let's Move!, contra a obesidade infantil. A primeira-dama incentiva a prtica de exerccios fsicos entre crianas e adolescentes
* A mais recente iniciativa antiobesidade foi da FDA. A agncia estabeleceu um prazo de trs anos, a partir de 2015, para que os alimentos com gordura trans, fator de risco para doenas cardiovasculares, sejam retirados do mercado

...e as medidas da indstria para incentivar o consumo de alimentos hipercalricos
* O xarope de milho de alta frutose (com syrup), um adoante calrico e barato, tornou-se um dos principais ingredientes dos alimentos processados, desde os anos 70  o composto confere textura, volume e sabor aos produtos
* As pores dos alimentos aumentaram significativamente desde a dcada de 80. Cresceu a produo de embalagens grandes, como pacotes de salgadinho de 500 gramas e refrigerantes em copos de meio litro
* No incio dos anos 2000, ampliou-se a oferta de cachorros-quentes, hambrgueres e batatas fritas nas mquinas automticas - at ento, ela se limitava aos refrigerantes


6#4 GUSTAVO IOSCHPE  POR QUE VOC NO FAZ NADA?
     O grupo que publica a revista The Economist tem um brao de pesquisas, chamado Economist Intelligence Unit. Um dos seus produtos  um indicador conhecido como Democracy Index, que anualmente analisa quase 200 pases e quantifica, com base em dezenas de indicadores, a fora da democracia de cada pas. 
     Na edio de 2014 (disponvel em twitter.com/gioschpe), o Brasil aparece em 44 lugar entre 167 pases (o campeo  a Noruega, e a Coreia do Norte  a lanterninha). O resultado nos coloca na segunda categoria, das Democracias Falhas. Abaixo das Democracias Plenas, mas acima dos Regimes Hbridos e dos Regimes Autoritrios. O ranking olha para cinco atributos. 
     O curioso  que, em trs dos cinco, temos notas condizentes com as das melhores democracias do mundo: processo eleitoral, liberdades individuais e funcionamento do governo. Por que, ento, vamos para a segunda diviso? Porque em participao poltica, de zero a 10, nossa nota  4,44, a mesma de Mali, Zmbia, Uganda e Turquia, e abaixo da de pases como Iraque, Etipia, Qunia e at Venezuela.  
     Este  o paradoxo da democracia brasileira: lutamos tanto por ela, e no a usamos. Uma gerao inteira brigou pelo retorno da democracia representativa, mas levou a substitutiva. Em uma democracia representativa, a cidadania ativamente demonstra suas vontades, e elas so canalizadas por seus representantes. Na verso brasileira, a democracia no comea na urna: termina nela. Parece que apertar uma tecla a cada quatro anos  a nossa concepo de governo "do povo, pelo povo e para o povo". Verificado o desastre, voltamos s urnas, quatro anos depois, para eleger a mesma combinao de ineptos e corruptos. E, mesmo sabendo do insucesso do modus operandi, ns o repetimos. Algum j disse que um dos sinais da loucura  continuar fazendo a mesma coisa e esperar que o resultado seja diferente... 
     E o melhor  quanto reclamamos, furibundos, das pessoas que ns mesmos colocamos no poder. Muita indignao e pouca ao, os males da nossa democracia so. 
     At entendo que em algumas questes mais etreas e distantes, como pedaladas fiscais e comisses em sondas petrolferas, parea mais complicado fazer algo. Tambm entendo que algumas camadas da populao  aquelas que nem bem alfabetizadas so e que precisam trabalhar de sol a sol apenas para garantir a sobrevivncia  no tenham compreenso, tempo nem energia para se engajar nas causas pblicas. Mas no consigo entender como  que gente instruda e preparada, que frequentemente j passou algum tempo em pases desenvolvidos e rapidamente identificou neles as virtudes que nos faltam, aqui parece achar que o problema no  com ela. E, apesar de pesquisar o assunto h uns quinze anos, confesso que entendo menos ainda essa apatia quando o tema  a educao nacional, que tem um papel to importante na preparao para a vida dos nossos maiores tesouros (nossos filhos). Como podemos deixar que nossas escolas sejam as porcarias que so, produzindo iletrados ignorantes aos milhes, todo ano? A propsito, o problema no se restringe s escolas pblicas. Como j mencionei aqui diversas vezes, 80% a 90% da diferena de desempenho entre nossas escolas pblicas e particulares  explicvel pela condio sociocultural do alunado. Se voc colocasse o seu filho em uma escola pblica, o desempenho dele cairia s 10% a 20%, portanto. Claro que temos, em um pas com as dimenses do Brasil, excelentes escolas particulares e pblicas tambm. Mas, em geral, as escolas pblicas so pssimas e as privadas, apenas um pouco menos ruins. 
     O que me leva a voc. Por que voc no faz nada? Certamente voc se importa com a qualidade da educao que seu filho vai receber, no? Sei, voc no tem tempo. Trabalho, casa, correria etc. Agora me diga uma coisa: voc v novela? Seriado americano? Acompanha o seu time de futebol? Dorme mais de sete horas por noite? Se respondeu "sim" a alguma dessas perguntas, desculpe, mas tempo voc tem. At porque, como veremos abaixo, no precisa de muito tempo, no. Eu sei, ningum  de ferro, todo mundo precisa relaxar. Mas primeiro o trabalho, depois a diverso. Como se divertir quando o pas est claramente indo para o buraco? Voc planeja mandar seus filhos para a Sua ou eles moraro no pas que voc construir? Caso o plano seja continuar por aqui, que tal arregaar as mangas?
      Ah, talvez a sua discrdia seja conceitual. Voc acha que j paga imposto que chega e que no pode fazer o seu trabalho e o do poltico tambm. Concordo. Mas, como diz o ditado, na prtica, a teoria  outra. Tenho ms notcias para voc:  a sua inrcia  que permite que os seus eleitos no faam nada (ou, pior, que faam a coisa errada). Louis Gerstner, ex-CEO da IBM, dizia que "people dont do what you expect, but what you inspect": no adianta esperar,  preciso inspecionar, conferir, pressionar. O cidado aptico  o viabilizador dos maus lderes. Eles vivem em uma relao simbitica em que todo o resto do pas  parasitado. Por que nossos lderes no implantam, por exemplo, um sistema que consiga alfabetizar todos os alunos no 1 ano?  simples: porque, para faz-lo, vo precisar se incomodar com os professores e os sindicatos da categoria. Precisaro fixar metas, exigir empenho e resultados, olhar para processos, mudar material didtico, coibir faltas, idealmente conseguir que as faculdades de sua regio formem um profissional decente em vez do repetidor de slogans e teorias que produzem hoje. Isso d trabalho e conflito. Por que o fariam? Porque a populao deveria reconhecer o esforo e valoriz-los. E a a contrariedade de meia dzia ficaria irrelevante em relao ao aplauso de milhares. Mas, no Brasil, esse aplauso no vem. Porque os pais e alunos nem sabem quo ruim  sua escola e, quando descobrem, deixam por isso mesmo. H muitos casos, que nem Freud explica, em que pais e alunos defendem greves absurdas de professores, que prejudicam enormemente o aprendizado de nossos jovens. A mensagem para os lderes bem-intencionados  clara: convm no fazer nada. Ningum vai reclamar. Se o seu prefeito ou governador soubesse que voc valorizaria uma ao mais incisiva, a maioria deles tomaria as suas dores, no tenha dvida. 
     "Mas fazer o qu?", voc se pergunta. A primeira coisa  fazer o dever de casa. Escolha a escola do seu filho de forma a maximizar o aprendizado dele, no o seu conforto. Escola boa no  a escola perto de casa: casa boa  a casa perto da escola, isso sim. Como saber se a escola do seu filho  boa? O primeiro bom indicador  o Enem, e, para as pblicas, tambm o Ideb. Depois,  importante visitar a escola, conversar com pais de alunos. Pea para conversar com o diretor da escola. Diretor que recebe os alunos no porto de entrada, diariamente, e est aberto ao dilogo com os pais  um bom sinal. Diretor que visita as salas de aula com frequncia tambm. Procure uma escola que tenha a infraestrutura em dia (salas limpas e arrumadas, com cadeiras, carteiras e quadro-negro), no aquelas que investem em balangands tecnolgicos, a maioria dos quais no tem eficcia comprovada. Veja tambm como a escola seleciona professores (o ideal  que ela faa com que o candidato a lecionar d uma aula a uma banca examinadora e que privilegie os que vm de boas universidades; o modelo a ser evitado  aquele que s se preocupa com o resultado de uma prova/concurso). Pergunte tambm se a escola diferencia seus professores, se procura saber quem so os melhores e os piores, e se faz alguma coisa para reter os melhores (nas escolas privadas, o salrio  a ferramenta bvia; mas mesmo nas pblicas  possvel e desejvel que os melhores professores sejam acompanhados e estimulados. Fuja das escolas que tratam os desiguais de forma igual). Veja tambm se a direo da escola estabelece e comunica metas claras de aprendizagem. O ideal  que todos saibam os contedos e habilidades que os alunos precisam dominar em cada matria, de cada bimestre, de cada srie. Escolas opacas, na linha do "fica tranquilo, ns  que entendemos disso", costumam ter os piores resultados.  
     Em segundo lugar, escolhida uma escola boa, os pais no devem relaxar e terceirizar. Precisam ter certeza de que o filho est recebendo dever de casa, diariamente, e que seus deveres esto sendo corrigidos.  importante que haja avaliao permanente (a boa e velha prova) e que o aluno tenha de estudar constantemente.  difcil absorver um conhecimento e lev-lo  memria de longo prazo sem repetio contnua, e a prova  que garante que o mesmo material ser revisto com cuidado (alm de servir de termmetro para que o professor calibre sua didtica quando nota que muitos alunos no aprendem bem). Evite escolas com muita avaliao "moderna", tipo autoavaliao, trabalho em grupo etc. J disse um sbio que o nico lugar em que o sucesso vem antes do trabalho  o dicionrio. Na vida e na escola. Certifique-se de que seu filho s falta  escola por motivos realmente srios (se voc faz com que ele perca uma semana de aula para lev-lo  Disney em poca conveniente para voc, depois no v querer que ele aprecie a importncia da educao... Se voc diz uma coisa e faz outra, seus filhos replicaro aquilo que voc faz). Certifique-se tambm de que seu filho trata professores e colegas com respeito. E comparea s reunies de pais da sua escola. 
     Depois de fazer isso pelo seu filho, faa-o por algum que ter dificuldades de fazer o mesmo. Uma empregada, um colega de trabalho, um amigo mais perdido na vida: tem muita gente que passou poucos anos na escola ou se sente inferiorizada socialmente, a ponto de no ousar questionar a escola do filho. Precisamos quebrar essas barreiras. Todo mundo paga pela escola do filho, quer via mensalidades, quer via impostos. A escola pblica  nossa, no de seus funcionrios. Eles devem nos prestar contas, no o contrrio. Ajude aqueles que tm mais dificuldades para entender isso. E d aos filhos dessas pessoas chances parecidas com as do seu filho. 
     Se voc realmente no tem tempo, doe dinheiro a boas instituies. H dezenas. Fundao Lemann, Roberto Marinho, Estudar, Instituto Ayrton Senna, Insper, Todos pela Educao... Essas eu conheo e recomendo, mas procure aquela que se encaixa na sua filosofia. 
     Indo do privado para o pblico: faa presso nos seus representantes locais. Cada cidade ter o seu problema; tenha apenas a preocupao de pressionar por algo que melhore o aprendizado dos alunos, no a infraestrutura da escola ou algo secundrio. Recomendo uma lei que obrigue que os resultados de cada escola sejam divulgados publicamente. Est tudo pronto no site www.idebnaescola.org.br. Pode acreditar: s vezes no  preciso mais do que dez pessoas que liguem ou mandem e-mails a um vereador para que o projeto seja aprovado. 
     Finalmente, vote direito. Escolha prefeitos e governadores que melhoraram os indicadores de aprendizado dos seus alunos. No nos que investem mais, que distribuem laptops, que falam de planos mirabolantes ou mostram vdeos em que beijam criancinhas na poca de campanha. Vote em quem entrega resultado, medido pelo Ideb. Para deputados, veja se o candidato fala de meios  salrio de professor, investimento, ensino integral  ou de fins. Prefira os que falam de fins (aprendizado) e que no presumem que aquilo que  bom para o professor  bom para o aluno. 
     Eu sei, voc no  especialista. H muito mais coisas que voc poderia fazer se fosse. Mas no precisa ser. Na maioria de nossas escolas, nem o bsico do bvio  feito; se voc ajudar com esse pequeno empurro, e ajudar algum a se ajudar tambm, pode ter certeza de que far uma enorme diferena. 
GUSTAVO IOSCHPE  economista


6#5 SOCIEDADE  NOBREZA SEM MONARQUIA
Quem so e o que esperam de seus ttulos os brasileiros que gastam tempo e dinheiro para tentar provar que pertencem a alguma linhagem de sangue azul.
CECLIA RITTO

     Extinta a monarquia com o advento da Repblica, em 1889, no Brasil, e em 1910, em Portugal, os ttulos nobilirquicos perderam sentido e foram parar no fundo das gavetas das casas da aristocracia. Passado o furor republicano, porm, saudosistas das cortes imperiais comearam a tirar a poeira dos brases, pelo simples prazer de se sentir distintos da turba plebeia ao seu redor. No Brasil, quem j teve um nobre na famlia e quer recuperar essa condio no tem a quem recorrer. Mas em Portugal existe um rgo, o Instituto da Nobreza Portuguesa, encarregado justamente de avaliar os documentos e a genealogia de quem se diz herdeiro de uma distino lusa dos tempos pr-republicanos. Comprovada a autenticidade da papelada, o instituto expede um documento restaurando o ttulo ao pretendente (e s a ele; seu descendente ter de comear tudo de novo). Foram beneficiados por esse processo, que  minucioso, demorado e custa caro, 1222 marqueses, duques, condes e bares descendentes de fidalgos, entre portugueses e brasileiros  20% deles "encartados", como se diz no meio, apenas nos ltimos cinco anos, perodo em que a demanda acelerou. Ao contrrio dos antepassados, os nobres brasileiros do sculo XXI trabalham para se sustentar e levam vida de classe mdia. No que isso lhes diminua o status. "Classe social  uma inveno inglesa do sculo XIX. Para ns, o conceito econmico no tem validade. Ter ou no dinheiro depende das circunstncias, mas ser nobre  uma situao perene", explica o professor de filosofia e tradutor Eduardo Pellew Wilson, o conde de Wilson, 50 anos, morador de Copacabana, no Rio de Janeiro, onde o primeiro conde de sua famlia ajudou a instalar o sistema de bondes. 
     Ter um ttulo nos dias de hoje no Brasil no tem nada a ver com ostentao. Os solares de famlia foram derrubados ou desapropriados; condes e bares no dispem de vasta criadagem, no recebem nem so recebidos e nem sequer espalham muito sua condio  basta-lhes a satisfao pessoal. O conde de Wilson, por exemplo, prefere posar  sombra nas fotos, mas fala com enorme orgulho de sua estrelada rvore genealgica, que remonta ao imperador Carlos Magno, do sculo VIII. A partir do primeiro conde, que recebeu o ttulo em 1891, em Portugal, o atual produziu um livro de 250 pginas, com certides e fotos, muitas fotos que, ampliadas, cobrem as paredes do apartamento. "Republicanismo nunca entrou na minha famlia, nem na da minha mulher", afirma. Maria Augusta  sua prima dezoito vezes por casamentos de antepassados (no os mais prximos) e descende de Jos Martins Jobim, mdico dos imperadores do Brasil. Wilson deixa claro que jamais se casaria com algum sem "um fio" de nobreza. "Para um nobre, o passado familiar  a coisa mais importante do mundo. Eu no sou nada alm de uma sucesso do que veio antes. As pessoas de fora no compreendem essa mentalidade", argumenta. 
     O processo de autenticao de ttulos pelo Instituto da Nobreza, com sede em Lisboa, custa 300 euros (cerca de 1000 reais), mas, incluindo gastos na produo da rvore genealgica e outras despesas, a conta no sai por menos de 10.000 reais. O interessado ainda precisa de um padrinho, algum integrante do seleto grupo de nobres no Brasil ou em Portugal que endosse seu pedido. Uma vez aceito, dez representantes da alta nobreza portuguesa analisam a papelada, que lhes chega j com o parecer de um tcnico, e, reunidos na casa do marqus de Fronteira, sede do Instituto, do ou no o aval. "Nobreza no se presume, prova-se", decreta Felipe Vasconcelos, o baro de So Joo Marcos, 39 anos, dono de uma construtora em Sete Lagoas, Minas Gerais, que levou trs anos para obter seu ttulo. Compreensivelmente, os "encartados" pelo rgo lisboeta querem distncia de outra fatia de nobres recentes no Brasil, aqueles que compraram ttulos ou de intermedirios duvidosos (a maioria faz referncia a ducados e principados da Itlia pr-unificao) ou de monarcas depostos que vivem desse expediente  entre eles, o de Ruanda. Por causa dessas manobras, a Associao da Nobreza Histrica do Brasil, entidade que funcionou durante menos de cinco anos no Rio de Janeiro promovendo saraus recheados de ttulos, fechou as portas: recusou-se a ceder  presso dos condes sem pedigree para fazerem parte do clube. 
     Na Europa, onde doze monarquias continuam na ativa e uma parcela da sociedade ainda revolve em torno de brases seculares, a pretenso a ttulos  sempre um processo longo e difcil. J identificar parentesco com alguma remota famlia da nobreza  faclimo. Ilusrio, mas faclimo. Em diversos pases, uma verdadeira indstria de pesquisa herldica prope-se a reconstituir laos de plebeus de hoje com nobres de antigamente. Quem se utiliza desses servios sempre sai com um braso e uma historinha do "antepassado" ilustre, em letras gticas, papel envelhecido e descompromisso total com a histria. Nada a ver com os servios do Instituto da Nobreza Portuguesa, instituio avalizada pelo prprio dom Duarte, o detentor atual do (inexistente) trono portugus. 
     Criado em 1946 com o nome de Conselho da Nobreza, o rgo passou a ter mais trabalho nos ltimos anos porque a internet facilitou enormemente tanto a pesquisa genealgica quanto a troca de informaes para o cumprimento dos requisitos. Quando a demanda era menor, o comit que julga os pedidos se reunia mais ou menos a cada trs anos; agora, bate ponto uma vez por ms. S passam pelo seu crivo os herdeiros da aristocracia portuguesa, a includos descendentes de portadores de distines concedidas por dom Joo VI quando a sede do imprio se transferiu para o Rio de Janeiro, em 1808  que so muitos. Ciente da necessidade de conquistar recursos e apoio no que at ento era uma colnia distante, dom Joo criou e concedeu  mediante retorno financeiro  235 ttulos de nobreza no Rio. Outros 1211 foram outorgados por Pedro I e Pedro II, mas esses, para o Instituto da Nobreza, no contam, por no se tratar de genuna monarquia lusa. Dom Joo Henrique de Orleans e Bragana, ou dom Joozinho, descendente dos dois Pedros e prncipe "de verdade" (nos meios monrquicos, os Orleans e Bragana continuam muito reais, em todos os sentidos), nem sequer sabia desse movimento de renovao nobilirquica. "Para mim, a nobreza est na postura e nos atos de cada um, no no ttulo", diz, muito aristocraticamente. 
     Superado o obstculo da origem do braso, os candidatos brasileiros  nobreza no medem esforos em seu propsito. O baiano Caio Tourinho, o visconde de Tourinho, procurador da Repblica de 45 anos e credenciais impecveis (a sede do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional em Salvador fica no antigo solar de sua famlia), no era o sucessor imediato: por carta, oito parentes que tinham prioridade renunciaram ao ttulo em seu favor. "Para mim,  uma herana cultural que ajuda a manter a minha identidade", diz. Sem funo prtica no Brasil, em Portugal o ttulo de nobreza d acesso  funes exclusivas. Tourinho, por exemplo, conta que j bailou em grandiosos sales ao som de valsas. Em locais reservados aos autenticamente "encartados", como o Turf Club, de Lisboa, as refeies so feitas em uma nica e longa mesa, como na poca da corte, a loua tem monograma e os garons ostentam gales dourados e luvas brancas. Tirando essas ocasies, porm, ser conde ou baro, no Brasil e em Portugal, no quer dizer nada. Por que, ento, se dar ao trabalho? "A extino das cortes propiciou uma uniformizao social e fez do ttulo algo raro e valioso", analisa o genealogista portugus Antonio Sousa Lara. "Ser nobre  uma tentativa de ser diferente." Nem que seja s para gravar um braso na loua da casa e ser chamado de conde pelo porteiro do prdio. 
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7# ARTES E ESPETCULOS 1.7.15

     7#1 LIVROS  A COR DO DINHEIRO
     7#2 LIVROS  A ERA DOS BILHES ETREOS
     7#3 MSICA  UM COLOSO DO ROCK
     7#4 MSICA  A ORQUESTRA SOU EU
     7#5 CINEMA  DEUS SALVE O PSSADO
     7#6 CINEMA  PONHAM-SE NO SEU LUGAR!
     7#7 VEJA RECOMENDA
     7#8 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     7#9 J.R. GUZZO  O FOGO DE CURITIBA

7#1 LIVROS  A COR DO DINHEIRO
Com milhes de exemplares vendidos, os livros de colorir tornaram-se moda entre adultos e salvaram a indstria editorial da retrao no faturamento.
BRUNO MEIER

     Zelador de um prdio em Goinia, Luciano Camargo fazia seus servios rotineiros quando deparou com uma caixa abandonada contendo livros, revistas, gibis e um disco de Donna Summer. Estava com 13 anos, tinha interrompido a 3 srie do ensino fundamental para ajudar nas despesas de casa, e agarrou os dois livros que ali estavam: Eram os Deuses Astronautas?, de Erich von Dniken, e um despedaado Cem Anos de Solido, de Gabriel Garcia Mrquez. Com o segundo ttulo, conta o hoje cantor, comeou uma longa convivncia com os livros. O sertanejo  que, junto com o irmo Zez, forma uma das duplas mais populares do pas   um leitor dedicado. Sempre abre um livro no banco do carro enquanto o motorista o leva para mais um show. J leu clssicos alentados como Os Irmos Karamzov, de Dostoievski. Mas o ritmo de leitura foi abalado nos ltimos meses por um tipo de livro diferente, sem palavras nem histria. H trs semanas, em sua casa num condomnio de luxo em Barueri, na Grande So Paulo, Luciano e a famlia, munidos de vrias caixas de lpis de cor, debruavam-se sobre desenhos de paisagens, florestas, bichos. Luciano aderiu  capitulou, diria um purista da literatura   moda dos livros de colorir. Diz buscar neles sobretudo momentos de diverso com a famlia. As vendas do gnero so impressionantes: em seis meses, de janeiro a junho, os livros de colorir arrecadaram mais de 35 milhes de reais. Nesses tempos recessivos, o fenmeno salvou o mercado editorial brasileiro de uma retrao em faturamento no primeiro semestre de 2015 (essas vendas milagrosas, porm, no aparecem na lista de mais vendidos de VEJA, pois livros de colorir no cabem nas categorias computadas ali). A oferta  de 136 ttulos  sempre crescendo, pois as editoras esto correndo para pegar a onda , mas uma nica autora responde por dois teros de todas as vendas: a escocesa Johanna Basford, autora de Jardim Secreto e Floresta Encantada, que venderam juntos mais de 1,5 milho de exemplares. So esses os preferidos de Luciano e famlia. 
     Os dois ttulos so da editora Sextante, uma potncia da autoajuda e de bestsellers como Dan Brown. Os irmos Marcos e Toms Pereira, donos da editora, compraram os direitos de publicao de Jardim Secreto na Feira de Frankfurt. J sabiam que a art-thrapie (terapia de arte) fazia sucesso no mercado livreiro francs, e imaginavam que isso pudesse ocorrer tambm no Brasil. "A melhor coisa de trabalhar com o irmo  que decidimos rpido", diz Marcos. Os dois editores tiveram, diante de Johanna, a mesma reao despertada, mais de dez anos atrs, por Um Dia Daqueles, do australiano Bradley Trevor Greive, livro de fotos de bichos fofos com frases inspiradoras que vendeu mais de 1 milho de exemplares no Brasil: deram uma gargalhada, depois compraram. Jardim Secreto era uma aposta para as vendas de Natal. A tiragem inicial foi de 15.000 exemplares, com a meta de comercializar 100.000 em um ano. Sete meses aps o lanamento, o ttulo vendeu 960.000. A editora agora investe todas as fichas em Reino Animal, da inglesa Millie Marotta, livro de colorir com animais que saiu h pouco, com a tiragem de meio milho de exemplares. Trata-se da segunda maior tiragem inicial j feita pela Sextante, s atrs de O Smbolo Perdido, de Dan Brown, com 800.000. 
     A demanda incentivou a criatividade editorial: de desenhos religiosos a erticos, passando pelos inevitveis gatos e cachorros, pode-se colorir de tudo. Fenmenos editoriais como esse so sazonais, e  razovel supor que o frenesi baixe com o tempo. Por ora, os livros de colorir movimentam a procura por lpis de cor e canetinhas. O vendedor ambulante carioca Max Lus Batista trabalhava com material escolar em um endereo de comrcio popular do Rio de Janeiro. H dois meses, comeou a se concentrar apenas em caixas de lpis de cor. Tiro certeiro: seu faturamento bruto semanal est em 10.000 reais, contra os 1000 reais de antes. "Deu para quitar meu carto e o carro. Foi uma bno", diz. 
     Em torno do gnero, surgiu uma bizantina controvrsia sobre a suposta desvalorizao da leitura. Livrarias no so templos da cultura, mas sim casas de comrcio  e, enquanto continuarem a vender livros de verdade, no cabem objees a outro produto que mantenha o caixa fluindo. As livrarias vm propagandeando as obras de colorir como "livros anti-stress". De fato, consumidores dizem que preencher o minsculo espao em branco de uma folha de relva com o lpis verde tem efeito tranquilizante. A prpria Johanna Basford usa a carta do relaxamento para promover suas criaes (leia a entrevista ao lado). Quando era funcionria de uma agncia responsvel por trazer ao Brasil DJs estrangeiros, como Avicii e Steve Angello, a mineira Marcela Lima s conseguia aplacar sua fobia de avio com livros de colorir. "Virou meu Rivotril", diz. A crise empacou as baladas: com menos DJs vindo ao pas, Marcela perdeu o emprego. Pelo menos provisoriamente, socorreu-se do lpis de cor: criou uma conta no Instagram em que posta fotos e vdeos para ensinar tcnicas de pintura com lpis. Com mais de 100.000 seguidores, conseguiu o patrocnio de fbricas de lpis de cor, e at tem ministrado cursos em Belo Horizonte.  a cor do dinheiro. 

"VIVO NA MINHA PRPRIA BOLHA"
Jardim Secreto, o primeiro dos livros de colorir a estourar no Brasil, vendeu 960.000 exemplares. Floresta Encantada j chegou a 620.000. Lanados em mais de vinte pases, os dois livros so criao da ilustradora escocesa Johanna Basford, 32 anos. De Edimburgo, onde mora, ela falou a VEJA sobre sucesso e - que surpresa - sobre tranquilidade.

Esperava esse sucesso? 
No me passou pela cabea jamais que os livros se tornariam best-sellers em tantos pases. Minha ambio era apenas criar um livro bonito a ponto de eu mesma ter vontade de colorir. Jardim Secreto e Floresta Encantada esto esgotados em vrios pases. Meus editores esto contatando outros fornecedores de papel nos Estados Unidos e na Europa para tiragens adicionais, e minha caixa de e-mail est repleta de pessoas chateadas com o que chamam de "escassez mundial" dos meus livros. Olha que loucura! 

Pintar ajuda mesmo a desestressar? 
Sim. Vivemos todos agora muito ocupados e conectados digitalmente. Colorir oferece uma oportunidade muito bem-vinda de se desconectar. Ficamos imersos em apenas uma tarefa, sem a vibrao constante do Twitter nem os chamados do Facebook. Esse sentimento de estar absorvido em uma nica atividade - em uma tarefa analgica, que no envolve telas -  muito reconfortante.  o que sinto quando desenho. 

Como  sua rotina? 
Acordo muito cedo porque tenho uma filha pequena, Evie. Tenho de fazer o caf da manh dela e  aguentar as manhas matinais. Depois, ando com meu cachorro pelos campos que cercam minha casa. Tenho uma abenoada bab que cuida da Evie enquanto eu trabalho no sto. Na hora em que subo, checo meus e-mails e as redes sociais e, em seguida, me desconecto da internet e comeo a desenhar. E bem desconectada. O momento mais calmo  quando estou no meu estdio criando uma nova ilustrao. Tenho obrigaes, listas de coisas para fazer - mas vivo na minha prpria bolha. 

 verdade que a senhora comeou a carreira com um estdio que fazia papel de parede e tecido para lojas e hotis de luxo? 
Sim, e quase fali com esse negcio quando a crise financeira bateu. Minha fonte secou. Tive de pensar rapidamente sobre o meu futuro. Decidi mudar radicalmente e, depois que mudei, foi um alvio enorme. Fechei o estdio que tinha, vendi todo o equipamento e me estabeleci na mesa da salinha do meu apartamento de um quarto. Ora, o desenho sempre foi a minha paixo. Comecei a trabalhar como ilustradora freelancer, criando desenhos a tinta para clientes ao redor do mundo. Cada semana, eu trabalhava com algum novo e criava ilustraes na minha mesa. No tinha grandes despesas e tudo o que possua era um laptop, um scanner e algumas canetas. Foi a melhor deciso que tomei. 


7#2 LIVROS  A ERA DOS BILHES ETREOS
Em um livro sobre o criador brasileiro do Instagram, Filipe Vilicic, editor de VEJA, retrata o vertiginoso mundo das startups que fazem fortuna da noite para o dia.
JOEL PINHEIRO DA FONSECA

     Na Sexta-Feira Santa de 2012, fechou-se um negcio histrico: a venda do Instagram, aplicativo de compartilhamento de fotos, ao Facebook, por 1 bilho de dlares. Os dois scios do aplicativo foram alados ao Olimpo dos empreendedores multimilionrios do Vale do Silcio. Eram eles Kevin Systrom, americano, e Mike Krieger, brasileiro. Em O Clique de 1 Bilho de Dlares (Intrnseca; 240 pginas; 39,90 reais ou 19,90 reais na verso eletrnica), Filipe Vilicic, editor de cincia e tecnologia de VEJA, usa o episdio como ponto de partida e de chegada para narrar a trajetria do brasileiro. A escolha da venda como o clmax pr-anunciado da narrativa d  histria de Krieger certa aura de predestinao: tudo o que ele fazia aproximava-o daquele bilho. A impresso final do livro, contudo,  a oposta: a de que o sucesso depende de uma dose desconfortvel de sorte. 
     De origem privilegiada, Michel Krieger ("Mike" nos Estados Unidos) passou a maior parte da vida no exterior e sente-se mais  vontade falando ingls do que portugus. Educou-se em uma cara escola americana de So Paulo e de l foi para a Universidade Stanford. Dnamo de trabalho e dedicao, Krieger, entre idas e vindas em diferentes startups do Vale do Silcio, associou-se a Systrom para trabalhar na rede social Burbn. A funo de carregar fotografias na rede, que era um detalhe do projeto, acabou se tornando, em uma virada decisiva, a funo central do agora rebatizado Instagram. O sucesso foi imediato, e em menos de dezoito meses do lanamento o Facebook fazia sua proposta irrecusvel. 
     Krieger tem, sem dvida, enorme capacidade de foco, muita inteligncia e criatividade, e trabalha duro. No difere, contudo, de tantos outros empreendedores sem sucesso e, por isso, sem biografia. Como tantos outros, teve sua cota de oportunidades perdidas. Esteve prximo de fazer fortuna em um negcio brasileiro, quando colaborou na criao do site Peixe Urbano, mas deixou o projeto antes que ele estourasse, o que  comum no setor.  
     O Instagram, ele prprio uma mudana fortuita de rumo, no era revolucionrio. Existiam outros aplicativos e redes sociais de fotos, e mesmo os filtros para tratar imagens, um de seus atrativos, no eram novidade. Poderia ter sido s mais uma na lista das redes sociais esquecidas. O mesmo vale para a negociao que culminou na venda para o Facebook: num mundo de valoraes to etreas e pouco assentadas em critrios objetivos, nmeros radicalmente diferentes seriam igualmente plausveis. Trs anos depois, ainda se discute se o preo pago foi alto ou baixo. 
     Paira sobre toda a narrativa o espectro da crise das empresas pontocom no ano 2000. O primeiro florescimento da economia on-line se desmanchou da noite para o dia. Nada garante que o mesmo no possa acontecer nesta nova fase, na qual uma pequena startup como o Instagram pde ser vendida por 1 bilho de dlares no apenas sem nunca ter dado lucro, mas sem ter sequer gerado um centavo de receita. O prprio imprio do Facebook vive cotidianamente o medo de se tornar irrelevante. 
     Vilicic fez um bom trabalho de averiguao de fatos e de entrevista com as pessoas mencionadas na histria. Sua evidente admirao por Krieger pode s vezes soar excessiva. Mas isso  um detalhe numa narrativa que, mais do que qualquer coisa, nos ajuda a conhecer, por meio de uma ponte brasileira, a histria e a cultura do Vale do Silcio, onde idealismo, ego e ambio caminham lado a lado, produzindo casos de sucesso e enormes frustraes. 
     Ocasionalmente, o autor arrisca incurses por temas controversos ligados ao mundo das redes sociais. Tratados de maneira curta mas eficaz, os possveis efeitos das tecnologias em nossa mente deixam uma inquietao no ar. Os empreendedores sonham em melhorar o mundo, mas e se estiverem contribuindo para o empobrecimento mental da humanidade, para relaes mais superficiais e para a diminuio da capacidade de concentrao? 
     A parte final do livro trata do Instagram ps-aquisio. Apesar das promessas de que ele continuaria independente, a "facebookizao" ( o termo empregado por Vilicic) foi inevitvel. A publicidade entrou, os termos de uso se tornaram menos protetores da privacidade e a abertura para novos empreendedores desenvolverem projetos ligados ao servio foi cortada abruptamente. Na viso popular, uma rede social alternativa e "do bem" passou a integrar o imprio do mal. 
     O Clique de 1 Bilho de Dlares  uma boa janela para os nomes e as grandes sagas que se desenrolam no Vale do Silcio. Um campo de competio feroz, de gnios megalomanacos, de transformaes sociais e de cifras inacreditveis, no qual o triunfo retumbante e o fracasso mais aterrador esto a um clique de distncia. 


7#3 MSICA  UM COLOSO DO ROCK
Sticky Fingers, dos Rolling Stones,  relanado com um CD extra com gravaes ao vivo feitas em Londres na melhor fase da banda. Vale a pena voltar ao passado.
OKKY DE SOUZA

     A Roundhouse  uma casa de espetculos em Chalk Farm, no norte de Londres, especializada em atraes de rock. Hoje est reformada e bonita, mas no incio dos anos 70 era pouco mais que um galpo empoeirado. L, em 1971, vivi um dos momentos inesquecveis de minha juventude  assisti, pela primeira vez, a um show dos Rolling Stones. Cus, pensei, como  explosiva a combinao entre a dana e os vocais de Mick Jagger e a guitarra atrevida de Keith Richards! A banda estava lanando o lbum Sticky Fingers, o segundo da trilogia que contm o melhor de sua obra e que se completa com o anterior, Let It Bleed (1969), e o seguinte, Exile on Main St (1972). Os trs consagraram os Stones, definitivamente, como a melhor banda de rock desde que o gnero foi criado, nos anos 50. 
     Agora, Sticky Fingers est voltando s lojas, inclusive no Brasil. Alm de as gravaes terem sido aprimoradas com a tecnologia digital, o relanamento traz um adicional de tirar o flego: um CD extra com cinco msicas gravadas... no show da Roundhouse. So algumas das melhores composies da fase de ouro dos Stones, como Midnight Rambler e Honky Tonk Women. Para mim, claro,  uma deliciosa viagem no tempo. Para o pblico mais jovem,  uma tima chance de ver o grupo com a vibrao das apresentaes ao vivo. Mas no  s: o CD extra traz cinco gravaes de estdio diferentes das originais, de msicas de Sticky Fingers. No mais surpreendente desses takes, realizado durante as gravaes do disco, Eric Clapton se junta aos Stones para interpretar o rock Brown Sugar. Outro rock ultrassacudido, Bitch, vem em verso ampliada, com mais dois minutos de gravao. Sempre que um artista ou uma banda de sucesso entra no estdio, faz diversos takes de cada msica e depois escolhe o que mais lhe satisfaz.  da que surgiram essas verses alternativas do disco. 
     Sticky Fingers  o primeiro lbum dos Stones que conta com o guitarrista Mick Taylor como titular da banda. Antes, o cargo pertencia a Brian Jones, que morreu drogado e afogado na piscina de sua casa, em 1969, aos 27 anos. Taylor atuou em faixas de Let It Bleed, mas apenas como msico convidado. Brian Jones, na verdade, foi o fundador dos Stones, mas acabou obscurecido pelas formidveis atuaes de Jagger e Richards  e tambm pela quantidade mastodntica de drogas que consumia. J no fim da vida, ele se tornou uma pedra no sapato da dupla. Sua inteno era que o grupo se dedicasse apenas ao blues e ao rock baseado no blues, como fazia no comeo da carreira e como fazia a maioria das bandas londrinas da poca. Jagger e Richards, no entanto, abriram o leque musical do quinteto, lanando mo do country e at dos ritmos latinos. 
     Sticky Fingers  um marco na carreira dos Stones no apenas pela qualidade das canes, mas pela incrvel capa, assinada pelo artista americano (ento) de vanguarda Andy Warhol. A capa traz a imagem da cintura de um homem que est usando jeans com um zper de verdade. Os fs brasileiros s descobriam que o zper era real quando passavam nas lojas de LPs importados, que na poca custavam os olhos da cara. Nesse perodo, as gravadoras no Brasil eram impiedosas em desfigurar as capas originais e criavam verses baratas delas, s vezes at eliminando os encartes. 
     O encarte de Sticky Fingers, por sinal,  tpico da irreverncia dos Stones. Traz uma foto do grupo com Mick Jagger... bocejando! O baixista Bill Wyman, por sua vez, posou para a foto... com o dedo no nariz! O disco marca ainda a estreia do logotipo dos Stones, aquele da boca com a lngua para fora, que se tornaria um dos mais duradouros cones da cultura pop. 
     Fazia muito tempo que eu no ouvia Sticky Fingers. Foi assim tambm com os melhores lbuns dos Beatles. Ouvi-os  exausto, at que a roda do tempo fez deles coisa do passado em minha vida. Hoje no coloco mais seus discos para tocar, mas  sempre com muito prazer que ouo uma msica deles em algum lugar ou em alguma rdio. Ouvir de novo Sticky Fingers, cujo LP original est em algum armrio de casa em meio  minha bagunada discoteca, teve esse mesmo efeito. Como era bom! Como continua bom e atual! At d saudade dos shows da Roundhouse. 


7#4 MSICA  A ORQUESTRA SOU EU
Diretor artstico da Budapest Festival Orchestra, que se apresenta nesta semana no Brasil, Ivan Fischer  um maestro  moda antiga  mas de olho no futuro.

     No atual universo da msica erudita,  cada vez mais rara a figura do regente personalista e ditatorial, a distribuir carraspanas enquanto rege a Nona Sinfonia de Beethoven. Muitos grupos sinfnicos esto atrelados a sindicatos poderosos, e qualquer reprimenda em tom mais spero  suficiente para que os instrumentistas se rebelem (tal  o caso da Filarmnica de Berlim, que na semana passada escolheu o maestro russo Kirill Petrenko como seu novo titular). Mas o hngaro Ivn Fischer, de 64 anos, traz em sua personalidade o melhor de dois mundos: ele  enrgico e exigente, porm os msicos no se imaginam conduzidos por outro lder. Diretor artstico da Budapest Festival Orchestra, que nesta semana faz recitais em So Paulo e no Rio, ele  conhecido pelo perfeccionismo, a ponto de seus comandados sarem dos ensaios exaustos. Por outro lado, tem desenvolvido um trabalho importante na popularizao do gnero erudito. Organiza concertos para crianas e rcitas  meia-noite para os adolescentes  nas quais os msicos decidem que peas a orquestra vai tocar. Outra criao de Fischer so os concertos nos quais a plateia se senta ao lado dos msicos e at discute o repertrio da noite. "O maestro ideal  uma mistura de liderana firme com senso humanitrio", diz ele, em entrevista a VEJA. 
     Ivn Fischer cresceu numa famlia musical. Seu pai, Sndor, tocava para Ivan e seu irmo, Adam (que tambm  regente), gravaes de Wilhelm Furtwangler, Otto Klemperer e Arturo Toscanini, para que os meninos identificassem as diferentes leituras que os maestros faziam de uma mesma obra. Fischer foi discpulo dos regentes austracos Hans Swarowsky e Nikolaus Harnoncourt. "Swarowsky me ensinou a respeitar o compositor e sua obra. Harnoncourt, por sua vez, me mostrou que a msica  a lngua pela qual nos comunicamos." Em 1983, ele criou a Budapest Festival Orchestra, hoje um dos grupos sinfnicos mais celebrados do pas. De ascendncia judia, Fischer j comps uma pera em idiche. Seus avs maternos morreram em um campo de concentrao  e ele observa com preocupao o crescimento da direita radical e xenfoba na Hungria. "Eu me oponho a qualquer tipo de nacionalismo. Mas nunca sofri reprimendas do governo, que continua a manter essa maravilhosa orquestra", diz. Na turn brasileira, Fischer no vai recorrer a suas inovaes   a orquestra no palco e os espectadores na plateia, como manda a conveno. O repertrio inclui Gustav Mahler, Johannes Brahms, Richard Strauss e Bela Bartk. "So compositores que dominaram a primeira metade do sculo XX e ofereceram um novo significado para a msica", diz. 
SRGIO MARTINS


7#5 CINEMA  DEUS SALVE O PSSADO
Rainha & Pas retrata as crises do ps-guerra.

     Aos 9 anos, ainda de posse daquela ingenuidade que frequentemente  uma das mais cortantes ferramentas crticas acerca do mundo adulto, o pequeno Bill Rohan foi um protagonista memorvel para Esperana e Glria, o filme de 1987 no qual o diretor John Boorman recuperava, com alguma ficcionalizao, sua experincia aventuresca de crescer na Londres sob os bombardeios nazistas da II Guerra. Um observador por excelncia, como convm a um futuro cineasta, Bill reaparece agora, aos 18 anos, em Rainha & Pas (Queen and Country, Irlanda, Frana e Romnia, 2014), j em cartaz. E a guerra, to definidora de todos os aspectos da vida inglesa mesmo dcadas aps o seu trmino  do infindvel racionamento de alimentos  reao representada pela revoluo pop dos anos 60 , dita tambm os rumos mais comezinhos da vida de Bill (Callum Turner): convocado pelo Exrcito, ele no  mandado para lutar na Coreia, como imaginava. Junto com seu inseparvel amigo de caserna, o baderneiro Percy (Caleb Landry Jones), recebe a incumbncia de permanecer no quartel e tocar as aulas de datilografia dos novos recrutas. Entediados e exasperados com as regras da caserna, os dois exercitam seu inconformismo de vrias maneiras possveis. Uma de suas brincadeiras, porm, revela-se funesta. Ao voltarem o cdigo militar contra o superior (David Thewlis) que os atormenta com seu conhecimento em prosa e verso de todos os artigos nele contidos, os rapazes provocam no sujeito um tristssimo colapso: veterano das duas grandes guerras e gravemente traumatizado desde a primeira delas, o superior tinha no seu apego aos verbetes e alneas a nica forma de manter alguma sanidade. 
     Mas que sanidade poderia haver em um sistema nascido de um mundo j desaparecido?, indaga John Boorman, hoje com 82 anos. Tudo em volta dos personagens  um sinal de uma Inglaterra que logo estaria radicalmente mudada, e na qual a coroao da rainha Elizabeth II, em 1953,  vista pelos protagonistas como um desfile curioso, ou como um smbolo vazio de um poder irremediavelmente perdido na dcada anterior. Essa , claro, a sensao que Bill experimenta, no o saldo dos fatos: com sua graa, sua nostalgia e sua empatia, Rainha & Pas acaba por ressaltar muitas coisas nas quais a Inglaterra de ontem poderia reconhecer a de hoje. Entre elas, a extraordinria capacidade de mudar junto com os tempos  e de se divertir enquanto o faz. 
ISABELA BOSCOV


7#6 CINEMA  PONHAM-SE NO SEU LUGAR!
Eis o erro de Minions:  um filme s de coadjuvantes.

     Em Meu Malvado Favorito, de 2010, Gru, o supervilo que se revela um pai amoroso, era auxiliado por um exrcito de criaturas baixinhas e amarelas. Os minions  em portugus, algo como "capangas"  encantaram crianas e adultos, tornaram-se memes nas redes sociais e voltaram com igual sucesso em Meu Malvado Favorito 2. O estdio de animao Illumination Entertainment agora dedica um filme inteiro aos amarelinhos. Minions (Estados Unidos, 2015), j em cartaz, traz para o centro da ao os esquetes cmicos que animavam os filmes estrelados por Gru. E  s isso: uma exasperante sucesso de gags descontroladas. O filme acompanha a tribo minion da origem pr-histrica ao primeiro encontro com Gru (no, no entregamos o final: era bvio que acabaria assim). Como os heris no falam linguagem articulada, os primrdios ganham uma montona narrao em off. Depois, h um tnue fio de enredo envolvendo a vil Scarlett Overkill e uma disputa pela coroa da Inglaterra. Tudo isso se passa nos anos 60, o que  pretexto para clipes com o rock da poca, de The Who a The Monkees. Os minions nasceram para ser coadjuvantes, e nessa condio deveriam ter permanecido. 
JERNIMO TEIXEIRA


7#7 VEJA RECOMENDA

DISCOS
CANO E SILNCIO, Z MANOEL (INDEPENDENTE)
 O pernambucano Z Manoel estudou piano clssico e tinha a pretenso de virar compositor erudito  seus modelos eram os cariocas Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga, que trafegavam entre o erudito e o popular. Ele chegou at a fazer faculdade de msica, mas no concluiu o curso. Z, no entanto, no desistiu da profisso. Cano e Silncio  o segundo disco desse cantor e compositor (mais compositor do que cantor, diga-se: a voz no  seu forte) nascido em Petrolina. Alm de beber na fonte erudita, ele se mira em marcas registradas do cancioneiro brasileiro, como as composies de Dorival Caymmi e da bossa nova. Entre as boas faixas esto duas orquestradas pelo maestro baiano Letieres Leite: a que d ttulo ao disco e Sereno Mar. O CD est disponvel para download gratuito no site www.zemanoel.com.br.

HOW BIG, HOW BLUE, HOW BEAUTIFUL, FLORENCE + THE MACHINE (UNIVERSAL)
 Ao surgir no pop ingls, em 2009, Florence Mary Leontine Welch trazia como marca as letras confessionais e um verniz new age chique, inspirado na pioneira Kate Bush. No seu terceiro disco, contudo, ela empreende uma mudana radical de estilo. Saem aquelas batucadas tribais (que a inspiravam a correr pelo palco de camisolo, como se viu no ltimo Rock in Rio) e entra uma batida inspirada no pop negro americano dos anos 60. A parceria com o produtor Markus Dravs, que j trabalhou com os grupos Arcade Fire e Coldplay, contribuiu para outra boa guinada. As composies esto mais para o classic rock de bandas como Fleetwood Mac do que para a sonoridade "eu acredito em duendes" de outrora  o que se evidencia nas faixas Ship to Wreck e Mother.

LIVRO
NORA WEBSTER, DE COLM TIBN (TRADUO DE RUBENS FIGUEIREDO; COMPANHIA DAS LETRAS; 400 PGINAS; 54,90 REAIS)
 Nascido em uma famlia catlica da Irlanda rural, o escritor Colm Tibn tem a obra pontuada por dois tipos de personagem: os gays e as mes. O que une os dois polos  a elegncia inquebrantvel: com sutileza, o homossexual assumido Tibn explorou as pistas da suposta vida enrustida do romancista americano Henry James (1843-1916) em O Mestre, de 2004. Em Nora Webster, ele se vale de igual conteno ao deter-se sobre seu outro foco de interesse, as mes. A personagem-ttulo  uma viva que tenta juntar os cacos e criar os quatro filhos aps a morte do marido influente num lugarejo. Mas o assdio da fofoqueira da comunidade s faz pux-la de volta para o luto. O autor expe no s seu universo autobiogrfico, mas um paralelo poltico: a luta de Nora espelha o esforo da Irlanda em superar seu enlutado passado.

* OS MAIS VENDIDOS VEJA
A obsesso com a organizao domstica fez a japonesa Marie Kondo ter um colapso na juventude. "Aps um desmaio, enxerguei com clareza: devemos manter em casa s os objetos que nos do alegria. O resto  dispensvel", diz. Hoje, aos 30 anos, a autora de A Mgica da Arrumao (traduo de Mareia Oliveira; Sextante; 160 pginas; 24,90 reais ou 16,99 reais na verso digital) extrai um belo lucro daquela fixao. Sucesso no Japo e nos Estados Unidos, seu manual ocupa o segundo lugar na lista de autoajuda de VEJA. O trunfo de Marie  revestir uma questo prtica de carter iluminador: arrumar a casa, vende ela,  uma forma de limpar a alma. Em contraste com a autoajuda em geral, que traveste lugares-comuns em conselhos salvadores, seu livro traz lies que vo melhorar de fato o jeito como o leitor dispe meias e cuecas nas gavetas. Diante de uma raridade assim, deve-se tirar o chapu  s no o largue fora do lugar, seno a moa surta. MARCELO MARTHE

DVD
O APOSTADOR (THE GAMBLER, ESTADOS UNIDOS, 2014. PARAMOUNT)
 Mark Wahlberg pode no ser totalmente convincente como um professor de literatura. , porm, um ator sob medida para interpretar a outra faceta de Jim Bennett, protagonista deste thriller dirigido pelo ingls Rupert Wyatt (de Planeta dos Macacos  A Origem): Jim  um iconoclasta e, como j diz o ttulo, um apostador compulsivo, capaz de deixar na mesa de jogo centenas de milhares de dlares. No entanto, garante no ser viciado na roleta e nas cartas; para ele, o risco  e principalmente a persistncia no risco   uma questo existencial, ditada por uma necessidade de viver seus impulsos autodestrutivos at o limite, algo que s sua aluna Amy (a tima Brie Larson) parece compreender. Claro que os tipos barras-pesadas junto aos quais Jim financia sua jogatina (entre os quais um espetacular e assustador John Goodman) no esto nem a para essa filosofia toda: querem ser pagos com juros, ou querem dar cabo de quem lhes d o calote. 


7#8 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- O Pequeno Prncipe. Antoine de Saint-Exupry. AGIR
2- A Herdeira. Kiera Cass. SEGUINTE 
3- Para Onde Ela Foi. Gayle Forman. NOVO CONCEITO
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
5- Toda a Luz que No Podemos Ver. Anthony Doerr. INTRNSECA 
6- A Seleo. Kiera Cass. SEGUINTE
7- Invaso do Mundo da Superfcie. Mark Cheverton. GALERA RECORD 
8- Divergente. Veronica Roth. ROCCO
9- As Espis do Dia D. Ken Follet. ARQUEIRO
10- Se Eu Ficar. Gayle Forman. Novo Conceito 

NO FICO
1- Bela Cozinha: As Receitas. Bela Gil. GLOBO
2- Eu Fico Loko. Christian Figueiredo de Caldas. NOVAS PGINAS 
3- Correr. Drauzio Varella. COMPANHIA DAS LETRAS 
4- Brasil: uma Biografia. Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling. COMPANHIA DAS LETRAS
5- O Dirio de Anne Frank. Anne Frank. RECORD
6- A Teoria do Tudo. Jane Hawking. NICA
7- O Capital no Sculo XXI. Thomas Piketty. INTRNSECA
8- Sniper Americano. Chris Kyle. INTRNSECA 
9- Uma Breve Histria do Tempo, Stephen Hawking. INTRNSECA
10- Sonho Grande. Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Philia. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- A Mgica da Arrumao. Marie Kondo. SEXTANTE
3- Ansiedade. Augusto Cury. SARAIVA 
4- No Se Apega, No. Isabela Freitas. INTRNSECA
5- A Hora  Agora! Zibia Gaspareto. VIDA & CONSCINCIA
6- O Poder da Ao. Paulo Vieira. GENTE
7- Gerao de Valor. Flvio Augusto da Silva.  SEXTANTE 
8- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE 
9- Negocie Qualquer Coisa com Qualquer Pessoa. Eduardo Ferraz. GENTE 
10- Como Chegar ao Sim com Voc Mesmo. William Ury. SEXTANTE


7#9 J.R. GUZZO  O FOGO DE CURITIBA
     O lder poltico mais poderoso do Brasil do sculo XXI, capaz de ganhar quatro eleies presidenciais em seguida e de se dar muitssimo bem em praticamente tudo o que quis nos ltimos anos, entrou de uma vez por todas num mato fechado. Vai sair, como sempre conseguiu at hoje? H muito tempo o ex-presidente Lula acostumou-se a saborear o que j foi definido como uma das melhores sensaes que um ser humano pode ter: a de atirarem nele e errarem o alvo. Com base no retrospecto, ele espera que sua vida continue assim  mas vivemos um momento em que esto acontecendo coisas que nunca aconteceram antes, e em que se confirma a velha mxima segundo a qual algo s  impossvel at tornar-se possvel. O ltimo exemplo a respeito  o terremoto causado pela priso do empresrio Marcelo Odebrecht, presidente da maior empreiteira de obras pblicas do Brasil e empresa-smbolo das relaes ntimas de Lula com os colossos do capitalismo nacional que recebem bilhes de reais em encomendas do governo. Era rigorosamente inacreditvel que um homem desses pudesse ser encarcerado; nunca tinha acontecido antes, e talvez nunca mais volte a acontecer. Quem seria capaz de imaginar uma coisa dessas em nosso Brasil brasileiro?  como se tivessem prendido o papa Francisco. Mas a est: aconteceu. Lula, de repente, percebe que no pode contar mais com o impossvel. 
     O ex-presidente est lidando com a carga de TNT espalhada  sua volta com o mesmo sistema que utilizou em todas as suas desventuras anteriores: como ficou claro no jato de declaraes que decidiu fazer nos ltimos dias, ele se defende negando, simplesmente, a realidade que est na cara de todo mundo. O que vai contra os seus interesses no existe, por maiores que sejam as provas em contrrio; continua convencido de que o brasileiro gosta muito mais das coisas que ele diz do que das coisas como elas realmente so. Lula, que imagina ser o lder popular timo e mximo, como o deus Jpiter, no pode pr o p na rua, com medo de ser vaiado pelo povo de seu pas. No pode dar uma entrevista livre  imprensa, com medo das perguntas que vo lhe fazer. Est mais do que provado que em seu governo, e no governo da sua sucessora, a populao foi roubada pela maior onda de corrupo dos 500 anos de histria do Brasil. O tesoureiro do seu partido est num xadrez em Curitiba. Tem a companhia, ali, de empreiteiros de obras que h anos presenteiam o ex-presidente com viagens em jatinhos particulares, utilizaram seus servios como promotor de vendas, pagaram-lhe milhes de reais em troca de palestras e mantm com ele uma intimidade to completa a ponto de lhe darem o amvel apelido de "Brahma". Lula  responsvel direto pela inveno de Dilma Rousseff, que est a caminho de tornar-se a pior presidente que este pas j teve. Advoga, em pblico, a favor de diversos dos mais sinistros ditadores do planeta  e por a segue a procisso. Mas ele parte para sua defesa, mais uma vez, agindo como se tudo isso estivesse acontecendo em alguma galxia perdida no fundo do universo. Ou, se est acontecendo aqui, o nico que no tem nada a ver com a histria  ele mesmo. 
     De quem seria a culpa, nesse caso? Eis uma questo em que o ex-presidente no se aperta; ele  um grande especialista em fuzilar feridos para salvar a si mesmo. Na sua atual ofensiva, e logo de cara, no teve o menor problema em sair acusando o governo Dilma, na esperana de misturar-se aos 65% de brasileiros que acham ruim ou pssimo o desempenho de sua criatura. A presidente, descobriu Lula, est no "volume morto"  como se ele no tivesse responsabilidade nenhuma por nada do que est dando errado. O PT, que vai to mal quanto Dilma, foi denunciado por "pensar s em cargos" e os petistas por no fazerem "nada de graa"  como se ele no cobrasse pelos servios que presta aos empreiteiros. Culpou o dio cada vez maior que existe contra o partido  como se ele no fosse o produtor nmero 1 do rancor na poltica brasileira. Acusou o governo Dilma de no fazer nada, com seu "legalismo", para combater a ao da Justia nas investigaes de corrupo  e o que queria que fosse feito? No existe a menor ligao disso tudo com a verdade dos fatos,  bvio. Fica apenas uma soberba sem limites, hoje transformada num vcio do qual Lula parece incapaz de se livrar. 
     Lula precisa fazer mais do que repetir a mesma missa. O fogo de Curitiba, com o correr do tempo e a coleta de provas, deveria estar cada vez mais longe dele. Est cada vez mais prximo. 

